Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
A voz de Jorge de Almeida era como uma suave harmonia, e, penetrando deleitosa na alma apaixonada da moça, estancou-lhe pouco a pouco as lagrimas e dissipou-lhe o medo.
— Oh! minha bella noiva! continuou elle, sempre de joelhos ; tranquillisa-te, e confia em mim : tu serás como a imagem de uma santa que se tira do altar para se adorar de mais perto e beijal-a nos pés com religioso fervor, e que outra vez se colloca em seu sagrado throno, intacta e pura como tinha delle sahido. Oh! amaldiçoado fosse eu por meus pais, se um instante só ousasse levantar olhos sacrilegos para o anjo que deve ser a guarda da minha felicidade futura! tu és minha noiva, serás em breve minha esposa, e a tua honra é a minha honra!...Juliana respirou. — Juliana!...
A donzella ergueu a fronte abatida, olhou com olhos de amor para Jorge de Almeida que estava a seus pés, e pousando suas mãos brancas e leves sobre a cabeça do mancebo, murmurou docemente :
— Jorge !...
A confiança entrara no seio da victima inexperiente.
A seducção acabava de alcançar a segunda victoria contra a innocencia e o pudor.
XVII.
A lua brilhava no céo clara e formosa; as flores exhalavão suavíssimos aromas ; a viração soprava brandamente, ciciando nas folhas das arvores ; a hora era de mysterioso silencio, o jardim uma poética e deleitosa solidão.
— Juliana, disse Jorge; abençoado seja a confiança que renasce em teu seio de anjo, e que em mim depositas, levantando-me até á altura da tua virtude!...
— Tu és meu noivo, Jorge, e eu confio em ti, como no protector desvelado que um destino amigo me vai outorgar.
— Ainda bem, minha formosa noiva! apoia-te pois no meu braço, e passeemos por entre as flores...
— Oh ! porque não ficaremos aqui!...
— Porque o sussurro das nossas palavras, embora murmuradas quasi ao ouvido um do outro, poderia talvez provocar a curiosidade de alguém que ainda não dormisse, e que o percebesse ; porque através das grades do jardim alguém que pela rua passasse, poderia ter-nos; porque emfim um acaso infeliz é possivel, e se te vissem comigo a esta hora, padeceria o teu credito, que depois do teu amor é o meu maior thesouro.
— Não, Jorge ; nós estamos seguros neste logar ; não o deixemos, eu t'o peço !...
— Ainda tens medo do veneno das flores, Juliana?... perguntou Jorge sorrindo.
— Talvez, respondeu sem pensar no que respondia, a bella moça.
— Oh! Juliana! dir-se-hia que é a desconfiança que de novo apparece no teu espirito.
— Jorge!
— Paciencia; não insisto mais, tornou o mancebo com uma voz sentida; devo contentarme com o que já fizeste por mim : abrindo a porta daquella sala, descendo a escada deste terraço, déste-me muito mais do que eu podia
merecer.
Juliana sentio-se commovida pelas palavras melancolicas do seu amante, arrependeu-se da resistencia que oppuzera ao convite que elle lhe fizera, e, tomando-lhe o braço, disse com doçura:
— Vamos, Jorge! vamos!
XVIII.
E os dous amantes passearão por entre as flores, ao clarão do luar, que cada vez mais brilhante parecia mostrar-se, e no seio daquella solidão deliciosa, em que respiravão perfumes embriagadores, e em que o silencio era somente interrompido por seus juramentos de amor.
Juliana ia pouco a pouco banindo de sua alma todo o instinctivo receio que determinara suas fracas hesitações ; ia pouco a pouco e sem sentir quebrando os laços do delicado pejo, que ao mesmo tempo a acanhava e defendia; e pouco a pouco ia abandonando-se a uma segurança imprudente, que a tornava cega ao perigo que corria, e surda ao clamor da virtude que se alvoroçava resentida.
Jorge procedia com habilidade consum-mada: não querendo comprometter-se por precipitado, mantinha-se dentro dos limites do mais escrupuloso respeito em suas acções ; não tinha ousado tocar com seus lábios nem as faces, nem
os cabellos de Juliana, nem com um leve movimento do seu braço procurara apertar ao peito a mão formosa e leve da encantadora moça.
Fallando á sua noiva, não lhe dirigira uma só proposição que
não pudesse repetir aos ouvidos de todos, ou enunciar em alta voz no meio de
uma assembléa; discorrendo porém sobre o amor, e como se deixasse levar por uma
inspiração arrebatadora, encadeiava sophismas graciosos que produzião
consequencias que parecião verdadeiras, e erão apenas erros perigosos e lições
disfarçadas de um senualismo vergonhoso; pintava o quadro do amor com as tintas
de uma luxuria dissimulada, de modo que se fizesse contemplar e ap-laudir sem
temor e sem desconfiança pela donzella, que sem o perceber abria o coração á
voluptuosidade e deixava accender-se nelle uma flamma traiçoeira e infernal.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.