Por José de Alencar (1872)
Houvera grande cheia no rio. Uma família de gente pobre ia passar o vau, que faltou-lhes. A mulher sumiu-se, o marido correu a salva-la, desapareceram ambos arrebatados pela correnteza, ou tragados por algum perau. Então o sendeiro, que levava o menino, e cujo cabresto soltara o infeliz pai no impulso de salvar a companheira, recuou, e seguindo pela margem foi ter à fazenda. A tronqueira estava aberta naturalmente; e assim pode chegar ao terreiro, onde o descobriram.
Era essa a verdade ou mera suposição? Ninguém tinha presenciado o sinistro, nem sabia-se em toda a vizinhança, de gente que houvesse desaparecido. Mas todos afirmavam o fato, que era aceito como ponto de fé.
Foi o bugrezinho batizado com o nome de João, sendo o padrinho o Afonso Galvão. As velhas que sustentavam haver partes do diabo no pequeno, não se deram por vencidas; e asseguravam que, durante o sacramento, o manhoso do inimigo para livrarse da estola e d’água benta, saltara mais que depressa e se escondera na pança do velho fazendeiro.
Tornou-se Jão o companheiro de brinquedos de Luís; e desde logo mostrou a têmpera do caráter que só mais tarde se havia de formar. Já em criança era robusto, valente, mas taciturno e sombrio; quando a molecada, que fazia roda ao senhor moço, o inquizilava, a ele Jão, ia-os sovando em regra, apesar de serem muitos e mais velhos.
Crescendo, veio a ser o camarada de Luís, a quem servia com dedicação que sob aparência ríspida e seca, era sincera e infalível. As vezes que salvara a vida ao jovem patrão, já não se contavam. Arriscar-se estouvadamente o moço fazendeiro, e salva-lo com fria intrepidez o rapaz, era fato comezinho e trivial na existência de ambos.
Assim nem Luís já agradecia aquilo, que passava entre eles por um serviço tão fácil como de arrear-lhe o animal; nem Jão se julgava com o menor título ao reconhecimento de seu patrão, por ter feito uma coisa, que lhe fava a si mesmo prazer e satisfação.
Luís Galvão era magano e fragueiro; gostava de bulir com as raparigas e pregar peças aos caipiras. Daí resultavam constantes desavenças, em que Jão, para defender o moço, tinha necessidade de desancar os assaltantes, pagando em muitas ocasiões com a pele as aventuras galantes do jovem patrão.
Uma vez travou-se tão renhida a luta, que o Bugre prostrou morto a seus pés um arrieiro com quem Luís Galvão puxara briga, oferecendo vinte patacões pela mula de estimação em que ele montava, a fim de fazer torresmos do couro. Irritou-se o tropeiro por tal forma com o sarcasmo, que teria com certeza morto ao filho do fazendeiro, se Jão não lhe arrostasse a fúria.
Com algum dinheiro tapou-se a boca aos parentes do morto e acomodou-se tudo; de modo que o Bugre continuou a acompanhar ao patrão em suas correrias.
Foi pouco depois desse incidente que Luís Galvão, passando uma tarde por Santa Bárbara, viu Besita à janela e ficou imediatamente caído por ela.
II
O casamento
Tinha Jão por Besita uma dessas paixões veementes que se afrontam com o impossível e arcam para subjugá-lo.
As pujanças de sua alma se revoltaram contra a adoração fervida e respeitosa que o trazia submisso; mas o caráter indomável estava enervado pela fascinação que exercia em natureza tão ardente a sedutora beleza da moça.
Quantas vezes não pensou que bastava-lhe um momento de resolução para arrebatar a mulher a quem amava, e leva-la ao deserto onde ele não se envergonharia de seu amor, e talvez sentisse orgulho de o inspirar tão possante e extremoso.
Mas ele que não temia o mundo e zombava dos perigos, assustava-se só com a idéia de um ressentimento de Besita; e não era preciso mais para espancar de seu espírito a tentação que em si produziam os encantos da menina.
Imagine-se, pois, o que pensou o Bugre quando percebeu que Luís Galvão gostava de Besita.
No dia em que teve certeza do fato, o provocador das rixas foi ele, que brigou sem descanso e com desespero. Pelo modo por que se expunha aos golpes dos adversários, parecia obstinado em procurar a morte, que entretanto fugia caprichosamente diante dele.
Quando não achou mais com quem tirar bulha, embriagou-se, ele que até então dera provas de sóbrio; e tal foi a moafa, que todo o dia seguinte não deu acordo de si, e esteve atirado na estrada onde escapou de ser esmagado por um carro de bois. Essa crise fez remissão. Recobrando-se do primeiro e violento abalo que sofrera, achou o rapaz dentro de si, no coração revolto, certa calma e consolo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.