Por José de Alencar (1872)
- Suponha o senhor que um poeta brasileiro fizesse alguma índia falar semelhante linguagem, e pedir à noite que picasse o seu amado em estrelinhas, não de massa, mas de papel dourado. Que risadas não dariam os ingleses e como não encheriam a boca de nonsense? Mas é Shakespeare... o grande mestre...
- The immense, the prodigious Shakespeare!... interrompeu Mrs. Trowshy no plenilúnio de seu entusiasmo.
- Talvez o poeta quisesse exprimir por esse modo a ingenuidade infantil de Julieta, que era quase uma criança.
- E não achou um modo mais delicado? O senhor escreveria semelhantes versos?
- Não sou poeta.
- Ora! Quem não o é hoje em dia? O senhor conceberia Julieta pedindo a Deus para fazer duas estrelas dos olhos de Romeu; ou para mudar os seus cabelos em raios de luz, como os de Berenice; mas para cortá-lo a ele em pedacinhos... Shocking! disse a menina pedindo ao inglês a expressão de seu sarcasmo.
A rir afastou-se Guida com Mrs. Trowshy, pelo caminho da “Cascatinha” que era o ponto do passeio.
O Dr. Nogueira aproximara-se de Ricardo e lhe oferecera um dos seus “regalias” convidando-o a fumar no canto mais afastado. Ali via-se uma fonte de ferro esmaltado representando a náiade do jardim dentro duma concha, e banhar-se nas próprias águas que vertiam-lhe dos olhos como torrentes de lágrimas.
Desde o primeiro dia Ricardo notara o Dr. Nogueira, cujo nome já conhecia pela reputação de talento que o cercava, e desejou aproximar-se dele. Deteve-o porém a expressão de fria arrogância que esticava o perfil e o talhe do candidato. Esse empertigamento moral revelava a afinidade que havia entre a alma do candidato e a vaidade feminina. Era alma que não dispensava os arrebiques e espartilhos ainda mesmo em casa.
Foi pois com prazer que Ricardo aceitou o charuto e a palestra, que lhe oferecera o Dr. Nogueira.
O candidato, como alguns homens de talento, longe de desdenhar os gozos materiais, entendia que é a carne que faz o espírito, o apura e lhe dá o nervo. Assim apreciava ele depois de um excelente jantar a febre sibarítica, perfumada com as fumaças do melhor tabaco de Havana, e embalada pelo burburinho da água trepidando na fonte ou pelo ruge-ruge das folhas das palmeiras.
E na forma do preceito de Horácio – miscuit utile dulci – aproveitou aquelas horas voluptuosas do quilo, para conhecer o adversário com que tinha de bater-se na campanha matrimonial, em que se achava empenhado.
- Aqui estaremos perfeitamente, disse Nogueira sentando-se na ponta do banco e indicando a seu lado um lugar ao moço. Gosto de fumar neste canto o meu charuto depois de jantar. O barulho da fonte, misturado com o dos coqueiros, derrama uma ligeira sonolência, quanto basta para não pensar; mas não tanto, que se deixe de sentir e gozar. Notou Ricardo que o devaneio desse espírito, como a sua amabilidade, tinham às vezes umas quinas ásperas: eram como tela de painel, que uma lasca da madeira estofa. Uma circunstância mínima lhe revelou esse traço fisiológico. O termo “barulho” para indicar o burburinho d’água, empregado por homem de tribuna e eloqüente, mostrava um defeito de educação. Como sucede à maior parte dos talentos que figuram em nosso país, não tinha Nogueira o polimento literário, e embora sentisse depois de certo tempo a necessidade de dar à sua palavra certo verniz de estilo, contudo notava-se ainda muita falha, em que através da arrogância do figurão, percebia-se a crosta do filho das ervas. A palavra é para esses mercenários o instrumento do ofício, a trolha de pedreiro.
- Temos demais a vantagem de livrar-nos da algazarra, que por lá vai. Esta gente avalia do espírito, como do champanha, pelo estouro; e então desafiam-se a quem dará as mais descompostas gargalhadas, para chamar a atenção.
- No fim das contas, parece que eles têm razão. É o rumor quem governa o mundo.
- Quer dizer a opinião.
- Não é mesma coisa?
- Há a sua diferença, impôs dogmaticamente o Nogueira, e passou adiante. A tarde está quente!... A estas horas costuma correr alguma brisa, mas hoje está abafado. Neste ponto Petrópolis é preferível à Tijuca. Eu, se não estivesse preso a esta gleba da cidade, é onde passaria o verão.
- V. Ex.ª é advogado? perguntou Ricardo para dizer alguma coisa e encher a pausa que lhe deixara o Nogueira.
- Tenho um escritório com o nome na porta, mas é para constar..., serve de ponto de palestra aos amigos. A advocacia já não é uma profissão.
- Perdão; eu a conto entre as mais nobres.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.