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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Os dois moços tinham deitado um joelho em terra, e beijavam cada uma das mãos do velho fidalgo, que colocado no meio deles envolvia-os num mesmo olhar de amor paternal.

— Erguei-vos, meus filhos, abraçai-vos como irmãos, e ouvide-me ainda. 

D. Diogo abriu os braços, e apertou Álvaro ao peito; um instante os dois corações nobres bateram um de encontro ao outro. 

— O que me resta a dizer-vos é difícil; custa sempre confessar uma falta, ainda mesmo quando se fala a almas generosas. Tenho uma filha natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre menina corar de seu nascimento, obrigaram-me a dar-lhe em vida o titulo de sobrinha. 

— Isabel?... exclamou D. Diogo. 

— Sim, Isabel é minha filha. Peço-vos a ambos que a trateis sempre como tal; que a ameis como irmã, e a rodeeis de tanto afeto e carinho, que ela possa ser feliz, e perdoar-me a indiferença que lhe mostrei e a infelicidade involuntária que causei à sua mãe. 

A voz do velho fidalgo tornou-se um tanto trêmula e comovida; sentia-se que uma recordação dolorosa, adormecida no fundo do coração, havia despertado. 

— Pobre mulher!... murmurou ele. 

Levantou-se, passeou pelo aposento, e conseguindo dominar a sua emoção, voltou ao dois moços. 

— Eis a minha última disposição; sei que a cumprireis; não vos peço um juramento; basta-me a vossa palavra. 

D. Diogo estendeu a mão, Álvaro levou a sua ao coração: D. Antônio, que compreendeu tudo quanto dizia essa muda promessa, abraçou-os. 

— Agora deixai a tristeza; quero-vos risonhos; eu o estou, vede! A tranqüilidade sobre o futuro vai remoçar-me de novo; e esperareis muito tempo talvez, antes que tenhais de executar a minha vontade, que até lá fica sepultada no vosso coração, como testamento que é.

— Assim o tinha entendido, disse Álvaro. 

— Pois então, replicou o fidalgo sorrindo, deveis ficar entendendo também um ponto; é que talvez me incumba eu mesmo de realizar uma das partes do meu testamento. Sabeis qual?

— A da minha felicidade!... respondeu o moço corando. D. Antônio apertou-lhe a mão. 

— Estou contente e satisfeito, disse o fidalgo; pena é que tenha um triste dever a cumprir. Sabeis de Peri, Álvaro? 

— Vi-o há pouco.  

— Ide e mandai-o a mim. 

O moço retirou-se. 

— Fazei chamar vossa mãe e vossa irmã, meu filho. D. Diogo obedeceu. 

O fidalgo sentou-se à mesa e escreveu numa tira de pergaminho, que fechou com um retrós e selou com as suas armas. 

D. Lauriana e Cecília entraram acompanhadas por D. Diogo. 

— Sentai-vos, minha mulher. 

D. Antônio reunia sua família para dar uma certa solenidade ao ato que ia praticar. 

Quando Cecília entrou, ele perguntou-lhe ao ouvido: 

— Que queres tu dar-lhe? 

A menina compreendeu imediatamente; a afeição pouco comum que tinham a Peri, a gratidão que lhe votavam, era uma espécie de segredo entre esses dois corações; era uma planta delicada que não queriam expor ao reparo que causaria aos outros amizade tão sincera por um selvagem. 

Ouvindo a pergunta de seu pai, Cecília, que neste dia tinha sofrido tantas emoções diversas, lembrou-se do que se tratava. 

— Como! sempre pretendeis mandá-lo embora! exclamou ela. 

— É necessário; eu te disse. 

— Sim; mas pensei que depois houvésseis resolvido o contrário. 

— Impossível! 

— Que mal faz ele aqui? 

— Sabes quanto eu o estimo; quando digo que é impossível, deves crer-me. 

— Não vos agasteis!... 

— Assim não te opões? Cecília calou-se. 

— Se não queres absolutamente, não se fará; mas tua mãe sofrerá, e eu, porque lhe prometi.

— Não; a vossa palavra antes de tudo, meu pai. 

Peri apareceu na porta da sala; uma vaga inquietação ressumbrava no seu rosto, quando viu-se no meio da família reunida. 

A atitude era respeitosa, mas o seu porte tinha a altivez inata das organizações superiores; seus olhos grandes, negros e límpidos, percorreram o aposento e fixaram-se na fisionomia venerável do cavalheiro. 

Cecília prevendo o que se ia passar tinha-se escondido por detrás de seu irmão D. Diogo. 

— Peri, acreditas que D. Antônio de Mariz é teu amigo? perguntou o fidalgo. 

— Tanto quanto um homem branco pode ser de um homem de outra cor. 

— Acreditas que D. Antônio de Mariz te estima? 

— Sim; porque o disse e mostrou. 

— Acreditas que D. Antônio de Mariz deseja poder pagar-te o que fizeste por ele, salvando sua filha? 

— Se fosse preciso, sim. 

— Pois bem, Peri; D. Antônio de Mariz, teu amigo, te pede que voltes à tua tribo. O índio estremeceu. 

— Por que pedes isto? 

(continua...)

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