Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Há outros que, pelo contrário, nem se sabem fazer amantes; outros que, vivamente interessados por uma senhora, ficam duas horas a sós com ela sem lhe dizer palavra, e, quando ela se retira, vingam-se de si mesmos, beijando suas pisadas, e se conservam uma noite inteira contemplando a cadeira em que ela esteve sentada; que comem o palito que lhe caiu dentre os dentes, que beijam em segredo o papelzinho que ela enrolou entre os dedos, que decoram e adoram os versos das balas que se atreveram a estalar com ela, que a servem nas sociedades como um escravo, e depois se retiram para um canto, olhando-a de longe, e abaixando os olhos se encontram com os dela; que quando são obrigados a dar-lhe o braço, tremem como varinhas verdes; se ousam dirigir-lhe a palavra, gaguejam e se perturbam a ponto de causar piedade; e que, finalmente, confiando, a medo, seus extremos a um amigo, lastimam-se, choram e vivem assim.
Manduca era pouco mais ou menos um namorado deste gênero.
Ora, parece depois do que vem dito, que naturalmente o homem que impõe deve ser forte e valente, e aquele que chora, fraco e desanimado; pois por notável contradição sucede o contrário disso: as mais das vezes o chorão é um Hércules, e o impostor um covarde. E mais um exemplo vem para a regra; porque Manduca tem o braço de um atleta; e Brás-mimoso a natureza de um poltrão.
Exatamente por esse motivo, Brás-mimoso, que achava um não sei quê no rosto de Manduca, desde a última noite que havia passado na casa de Venâncio, não tinha lá a maior vontade de encontrar-se com o moço em lugar solitário; porém, tantas voltas deu o filho de Tomásia pelas ruas do jardim, que depois de aturado trabalho conseguiu encontrar-se cara a cara com Brás-mimoso, que, um pouco desapontado, e com o mais desengraçado e menos bem fingido disfarce, ia já se voltando para trás, quando Manduca o chamou dizendo:
— Sr. Brás, faça-me o favor...
— Oh! Sr. Manuel! exclamou Brás-mimoso, ora... muito bem diz o ditado — os que se querem, se encontram sempre.
— Fico-lhe obrigado; mas ouça-me, pois tenho que lhe falar.
— E eu também... quero dar-lhe os parabéns... o senhor tem sido feliz... felicíssimo... o nosso amigo Otávio deve trazê-lo na garganta.
— Pior é estar-me o senhor a trucar de falso!... disse Manduca levantando a voz.
Brás-mimoso estremeceu desde os pés até à cabeça.
— O Sr. Manuel parece um pouco... exacerbado!... creio que não fui eu quem teve a desgraça...
— Então já se esqueceu do que disse em minha casa sexta-feira à noite? perguntou o moço.
— Oh!... pois V. S.ª ainda se lembra disso?
— Lembro-me perfeitamente de que o senhor se fez de grande valentão, porque estava à vista de minha mãe; e, portanto, venho aqui repetir-lhe o que então disse, e dar-lhe um conselho proveitoso.
— Sr. Manuel, V. S.ª abusa da minha posição!...
— Eu quero repetir-lhe na cara que o senhor é um esqueleto de cinqüenta anos, um velho muito ridículo e miserável; pois que, sem se lembrar de que tem cara de avô, anda com pretensões de moço de vinte anos...
— Senhor... eu vejo que devo ser prudente com V. S.ª... eu me recordo de que V. S.ª é o filho de um homem... e de uma senhora.
— Digo-lhe, continuou Manduca, que me não importa que o senhor persiga com suas maneiras ridículas e desprezíveis aquela bela senhora; pois que eu a suponho com bastante juízo para não fazer caso de uma ostra, de um carrança espartilhado como o senhor!...
Brás-mimoso tremia e suava suores frios; por isso ouviu sem dizer palavra aquele ataque feito a seu amor-próprio.
— Porém, prosseguiu Manduca, e aqui vai o conselho; se o senhor tiver o atrevimento de gabar-se uma outra vez em qualquer parte do mundo de ter sido atendido por D. Honorina, já que mostra tão pouco juízo, que parece haver-se tornado de novo criança, tenha a certeza de que me acho disposto a persegui-lo cruelmente.
— Está bem, Sr. Manuel, diga o que lhe parecer...
— Juro-lhe que sou capaz de arrancar-lhe a cabeleira mesmo à vista de D. Honorina.
— Senhor... mas eu não sei em que tenho merecido a inimizade de V. S.ª...
— E como, em todo o caso, faz-se preciso que um castigo acompanhe sempre o crime, e o senhor delinqüiu, falando sem respeito de uma senhora honesta, e chegando mesmo a caluniá-la... Brás-mimoso, ouvindo falar em castigo, sentiu enfraquecerem-lhe as pernas, e, encostando-se ao tronco de uma árvore, olhava para todos os lados a ver se descobria alguém a quem recorresse.
— Eu exijo, continuou Manduca, que em presença das mesmas pessoas, diante de quem falou sexta-feira, o senhor se desdiga de quanto disse... que confesse que não passa de um tolo... — Sr. Manuel... V. S.ª...
— Um caluniador...
— Por quem é, Sr. Manuel, não me deite a perder...
— Um...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.