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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Restaurado de forças físicas à proporção que a alma lhe remoçava, o conde ordenou, em tom militar, que toda a sua família das Boticas se transferisse para Ponte do Lima. Francisco José da Costa contrariou seu sogro, alegando que se tinha contratado por tempo de três anos com o município, e não podia deixar os seus doentes, sem que o seu lugar estivesse ocupado. O conde tais artes usou, de inteligência com Pizarro, que dias depois um médico, com vntajosíssima oferta pecuniária do conde, se oferecia a substituir Costa.

Mudou-se a família para Ponte.

Dias depois, Ângela era agraciada com o título de condessa de Gondar, e seu marido participante do título, em duas vidas.

Francisco Costa, lendo o ofício do ministério do Reino, dirigiu-se ao sogro, e disse risonho:

― Um operador de cataratas conde! Meu querido amigo! Não queira vossa excelência afugentar de mim os doentes pobres que precisam dos meus serviços! Os enfermos indigentes que tem um colmeiro de palha como leito não ousariam chamar à sua caverna um conde. O pobre que se chama simplesmente Francisco folga e alegra-se de poder chamar Sr. Francisco ao irmão que lhe faz a receita. O título que vossa excelência pode sem custo e com muitíssimo proveito dar ao marido da condessa de Gondar, é permitir que ela pague do seu bolsinho ao boticário as receitas que eu mande aviar, e dar-ma também como auxiliar na cura dos pobrezinhos que adoecem de fome e frio.

O conde de Gondar viveu dez anos a mais ditosa existência de velho. Ainda viu seis netos à volta dele, perfumando-lhe de primaveras aqueles dez invernos cheios de sol.

Morreu aos oitenta, encostando serenamente a face sobre o braço da filha, que lhe dava a oscular a Cruz de Cristo.

Um ano antes tinha descido abençoada à sepultura aquela primorosa Vitorina, legando os seus cordões restaurados, e um bom casal que lhe dera Ângela à filha mais velha de sua ama.

Vivem atualmente a condessa de Gondar, o marido, que ficou sempre Francisco José da Costa, seis filhos, o mais velho dos quais, aquele Antoninho, nascido nas Boticas, é o mais requintado aristocrata do Minho, e aturde os seus condiscípulos da Universidade contando-lhes legendas do Paço de Gondar, de que ele vem a ser o vigésimo senhor. A legenda que ele ignora é a de sua avó D. Maria d’Antas.

Ângela tem hoje quarenta e nove anos. As rugas não ousam ainda combater a mocidade renascida naquele coração. Cinco meninas formosas que a seguem à missa passam pelo desgosto de ouvir dizer:

― A mãe é melhor que as filhas.

Quem ainda vive, a competir com os velhos robles do Paço de Gondar, é João Pedro, que pediu a sua reforma, e está feitor nominal do condado.

Na véspera de Natal vem sempre a Ponte consoar com “a sua gente”, diz ele. E depois que as rabanadas e o Porto lhe aguçam a memória, costuma dizer todos os anos, a sós com Ângela:

― Ó senhora condessa!... mal diria eu quando a vi casada com aquele Hemorragilde!...

Ângela, com quanto já conheça, de antemão, o gracejo obrigado da noite de Natal, aplaude sempre com uma risada e dois piparotes na orelhas musgosas do macróbio.

EPÍLOGO

Concluído o livro, suja-se uma verdadeira lauda com as escavações que mandamos fazer nos pântanos desta história.

Descobriu-se através de fétidos esgotos, que os três amigos e herdeiros de Hermenegildo Fialho de Barrosas ainda respiram a medram.

Atanásio José da Silva é barão da Silva.

Pantaleão Mendes Guimarães é barão de Mendes Guimarães.

Joaquim Antônio Bernardo, como não tinha apelido, apossou-se da quinta dos Choupos, que lhe fora hipotecada na dívida fantástica de Fialho, e fez-se barão dos Choupos.

Ainda há mais um título.

O marido de Rosa Catraia, retirado à terra onde nascera, Cabeceiras de Basto, fez-se influente político, principiando em regedor, depois camarista, presidente do município, e administrados substituto do conselho.

Lutador acérrimo em eleições de deputados, vingou levar ao parlamento um sobrinho de Rosa, formado à sua custa. A comenda que o agradecido bacharel lhe enviou fez saltar a rolha da cornucópia das graças, que mais se retorcia de vergonha sua e da pátria, como se uma e outra pudessem já alegar pudor, e negar-se a solicitações de infames.

Rosa Catraia é, pois, baronesa de Vilar d’Amôres, título um tanto lírico e romanesco, bem ajustado às escarlates bochechas e túrgidos seios que ressumbram bestidade, saúde, alegria e lubricidade seródia.

As outras baronesas, bastante mais avelhantadas, representam os estragos da corrupção moral nas pessoas, e o despejo da corrupção política nos títulos.

FIM

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