Por Lima Barreto (1911)
— Doutor, bom dia! Já sabe da última novidade? O Comensoro casa-se com a copeira da pensão. Esse Comensoro, Edgarda, é muito engraçado. Você sabe como foi o casamento dele? Vou contar. Ele pinta os bigodes. Outro dia, não tendo tempo de pintá-los completamente, saiu com a metade do bigode branco. Na sala, ao tomar a escada, alguém disse: Coronel, o senhor está com o bigode sujo; A menina, a noiva, a copeira...
— Não era copeira, Anita — disse Edgarda.
— Enfim, a noiva observou por aí: Não é verdade dizer que a metade do bigode do coronel está suja; o que ela está é limpa.
— Por isso casou-se? — perguntou Numa.
— Por isso. Vai comer bons quitutes, certamente.
— Como você sabe disto, Anita?
— Eu não sou muito própria para saber, mas certamente Comensoro não será também. Está tão velho...
— Nem tanto — disse Numa.
— No almanaque; a igreja talvez não seja da mesma opinião... Doutor, outra coisa: preciso do seu voto para serem rejeitadas as tais desacumulações. Manoel não pode viver sem os vencimentos de professor...
— Minha senhora...
— Olhe, Doutor, nós ficamos inimigos...
— O povo...
— Que tem o senhor com o povo? O povo não vale nada... Não vê como ele não quer Bentes, como se pudesse ter opinião dessas coisas. Não acha, Edgarda?
— Olha, Anita, eu não sei bem se ele pode ter ou não.
— Você é socialista. Não sei como você, filha de senador e mulher de deputado, pode ter idéias tão estrambóticas. Então, Doutor, como vota?
— Minha senhora...
— Seja franco: como vota?
— Depende.
— Edgarda, como vai votar o marido de você?
— Isso é lá com ele; não tenho nada com isso.
— Pois olhe, minha filha, não é o que dizem por aí.
Numa e Edgarda entreolharam-se, e Mme. Foirfable insistiu:
— Quero uma resposta, Doutor.
— Minha senhora, voto com o líder.
— Está bem. Você sabe, Edgarda, vim só com o café...
— Você quer almoçar comigo?
— Não. Falar em almoçar... Você sabe quem me convidou a jantar com ele há dias, em “tête-a-tête”?
— Quem?
— O Albuquerque. Não conhece, Doutor? O poeta Albuquerque...
— Conheço. Recita muito bem.
— Ele convidou e você aceitou? — perguntou Edgarda.
— Quase! Albuquerque está fazendo um poema... Você não gosta dos versos dele?
— Não são maus. Por que você não jantou com ele?
— Que diriam?
— Ah! — fez Numa vitoriosamente. — Aí, a senhora respeita a opinião...
— Sim, mas para fazer um presidente da República, precisa-se saber a opinião do carniceiro, do padeiro, do vendedor de jornais, do tripeiro? Ora!
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.