Por Aluísio Azevedo (1895)
Enquanto para Teobaldo a vida corria desse modo, oscilando entre amarguras e contrariedades de todo o gênero; enquanto ele sofria por não ter coragem para abrir por uma vez contra os seus hábitos e tomar energicamente um novo caminho, o Coruja ralava-se de serviço, preocupado apenas pela idéia de que nada viesse a faltar ao seu amigo.
Daí começou para André uma triste época de sacrifícios ignorados e obscuras privações. O diretor do colégio chegou a dizer-lhe que não se apresentasse tão mal trajado; ele, com efeito, trazia agora um fato que, à força de uso, perdera de todo a cor primitiva e já em certos lugares se mostrava transparente.
A sua economia, depois que Teobaldo precisava de socorros, parecia milagrosa: só comprava roupa já usada e calçado já servido, e com este regime, e mais sem ter nenhum vício e comendo a expensas do colégio, passava semanas inteiras sem gastar um vintém com a sua pessoa.
Entretanto, não vivia alegre, porque, apesar de tamanho heroísmo, Teobaldo ainda sofria privações.
Um outro motivo do seu desgosto era D. Margarida. A velha, desesperada com a demora do casamento da filha, acabara por perder de todo a paciência e desabafou uma vez defronte do Coruja:
- Ele, se não tinha intenção de casar, por que iludiu a pobre rapariga?
- Eu não a iludi... explicou André, corando. Pelo menos nunca tive a idéia de iludir pessoa alguma...
- Então por que não casou já por uma vez?
- Porque tenho encontrado dificuldades com que não contava...
- Ora! é sempre a mesma cantiga! Dificuldades! e afinal de contas o senhor não é capaz de dizer que dificuldades são essas!? Eu, por mim, confesso que já desconfiei do negócio e, quando dou para desconfiar, é o diabo! Para o que, veja-se: dantes, quando o senhor ainda não estava tão ligado a nós, trazia-nos quase sempre algum presente: eram cortes de chita, eram lenços, latas de doce, camarotes de teatro... e hoje?! Hoje é isto que se vê! O senhor esbodega-se lá por fora e já faz muito quando nos traz uma desgraçada libra de café! Ainda se gastasse consigo, vá! mas nem isso, que o senhor anda mais bodega que um cigano! tem a roupa a cair aos pedaços, os sapatos que é uma vergonha, só a camisa é decente, porque a engomamos nós! Ora, pois, a coisa está a entrar pelos olhos! Pois então, quando o senhor ganhava muito menos, podia gastar consigo e conosco, e agora, que faz por mês o dobro do que fazia, não tem com que comprar um chapéu, para não se apresentar com essa rodilha de limpar panelas, que até encalistra a quem se dá com o senhor?
- É exato... é exato, dizia o Coruja, envergonhado de si mesmo.
- Ora, pois! Isto é coisa! Gato ou raposa! Quanto a mim, digo-lhe com franqueza, ninguém me tira da cabeça que o senhor o que tem é por aí algum diabo de uma mulher que lhe come até à última!
O Coruja, ao ouvir, fez-se cor de sangue e balbuciou escandalizado:
- A senhora está enganada, Sra. D. Margarida!...
- Pois, então, se não é uma mulher que o está depenando, o senhor deu para jogador...- Jogador! Eu?
- Sem dúvida!...
- Deve duvidar, sim, senhora! Eu nunca joguei!...
- Então deu para avarento!
- Se eu tivesse pecúlio ajuntado já não estaria solteiro.
- Pois então não sei! A verdade, porém, é que o senhor ganha e o dinheiro não aparece!... E essas recriminações iam longe. Inezinha em compensação fazia justamente o contrário: - Não se de por achado, seu Miranda, dizia-lhe ela, sempre muito mole e muito por tudo - aquilo em mamãe é gênio...
- É que não me convém casar, sem a certeza de que nada faltará à minha mulher... respondeu ele.
- Decerto.
- Acho que é um crime obrigar uma menina a sofrer necessidades.
- Acho que ninguém tem o direito de oferecer-se para marido, enquanto não pode ser pai...
- A senhora, se quiser esperar que eu melhore de condições, espere; se não pode, então o caso muda de figura.
- Eu estou por tudo, seu Miranda.
- Visto isso é preciso fazer com que sua mãe se deixe daquelas coisas...
- É gênio, coitada! Olha, a mim nunca o senhor ouvirá dizer nada... O que tem de ser, traz força. Do que serve a gente se amofinar?... Consumações não adiantam nada...
E, como sempre, terminava com a sua invariável frase:
- Mais vale a nossa saúde...
O Coruja, todavia, mortificava-se deveras com a situação. Por coisa alguma ele seria capaz de confessar o verdadeiro motivo da sua penúria, e só a idéia de passar por um impostor aos olhos da velha era o bastante para lhe tirar todo o sossego do espírito. O fato de haver prometido casamento a uma rapariga e não ter certeza de poder cumprir honestamente com o prometido tomava naquela imaculada consciência as proporções de um crime monstruoso.
Vinham-lhe ímpetos, às vezes, de escrever uma carta a Margarida, dizendo que não contasse com ele e desse a filha a um outro que a desejasse; mas o Coruja ao lembrar-se disto já estava a ver defronte de si o tremendo vulto da velha, a gritar, com as mãos nas cadeiras:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.