Por Aluísio Azevedo (1891)
— É singular!... resmungou o médico. É singular!... Os fenômenos que observo neste enfermo, desmentem as minhas experiências já feitas nos hospitais! ... É um caso singularíssimo de histeria no homem! ... Ah, meus colegas, meus colegas obstinados em que a histeria tem a sede no útero!... Queria vê-los aqui, e haviam de confessar que ela não passa de uma nevrose encefálica!... Platão com o seu sistema de útero desesperado por conceber, com o seu útero que dana e faz cabriolas até ao cérebro, é um visionário, como todos os seus discípulos espalhados pelas nossas academias!... No século dezenove compreenderão talvez o que hoje negam tão obcecadamente! Caturras! Não percebem que o vasto mundo dos nervos é tão grande, tão complicado e tão extraordinário, como todo um mundo planetário!... Falam em psicologia, falam em intelecto, e não falam nessa cousa ainda hoje sem nome — a vida autônoma dos nervos; isso, cujo conjunto pressinto e vejo pelas suas fenomenais manifestações, e habita uma parte material de nosso corpo, tão importante que pouco conhecida e estudada até hoje! isso, que há de encher uma época no mundo dos sábios e produzir uma grande revolução científica! Ah! não poder eu viver daqui a cem anos!... ou não ter talento, gênio, para poder adivinhar o que os outros mais tarde descobrirão. Maldita seja esta minha cabeça inútil, e maldita seja a medicina! E maldita principalmente seja esta minha ausência de Monteli, durante a qual tantos progressos fez o meu doente na sua desconhecida moléstia!... Ah! mas hei de chegar a um resultado, ou enforco-me no primeiro lampião ou na primeira árvore que encontrar pelo caminho! E, voltando-se vivamente para a tia Salomé, a limpar, ofegante, o suor da testa, perguntou:
— E ele em que estado acorda?...
— Ora, Sr. doutor... Cada vez mais acabrunhado e abatido... respondeu a boa velha, sarapantada de todo com o ar perplexo do médico. As tais horas de sono do senhor vigário, em vez de lhe darem novas forças e fazê-lo rijo, a modo que o deixam mais prostrado... Acorda cansado nem que se chegasse de uma viagem muito longa, ou que então largasse naquele instante um serviço muito forte!... Levanta-se da cama quase cambaleando, as suas orações fá-las ele tão fatigado como se passasse a noite em claro, barbeia-se caindo de sono, e depois assenta-se um bom tempo, descansando. Se eu não vier chamá-lo para a missa, é capaz de ficar aí todo o santo dia, a cismar!...
— Diabo! exclamou o médico com uma palmada na perna. Diabo! esta minha ausência foi um transtorno infernal! A nevrose chegou a um ponto em que se torna quase incurável!... Ah! mas, haja o que houver, carrego-o amanhã mesmo para o novo hospital de neuropatas que acabei de abrir, e vou fazer nele as minhas primeiras experiências da aplicação da água fria por meio de duchas graduadas! Está decidido! E é bem possível que eu, daqui a pouco tempo, esteja apresentando à Academia de Ciências o meu livro novo sobre o grande mundo dos nervos! ...
E voltando a ter com Salomé:
— Não veio de Paris ninguém visitá-lo, além dos devotos do milagre?...
— Ninguém... respondeu ela.
— Diga-me uma cousa, tiazinha... mas fale com franqueza, que é para o bem do nosso doente... Nunca descobriu no vigário qualquer inclinação por alguma mulher? ...
— Credo, senhor doutor!... exclamou Salomé, benzendo-se. Credo, Pai Santíssimo! Pois então o senhor vigário seria lá capaz de?... Ele, que é um santo! Valha-me a Senhora dos Aflitos, que até senti um engulho no estômago!
— Não há dúvida! Carrego-o amanhã mesmo para o hospital!... Vou daqui tratar do que me falta para poder levá-lo!
Salomé, que tinha ido até à janela, voltou para segredar apressada ao médico:
— Ele aí vem!...
Cobalto, pôs-se logo em retirada, e disse precipitadamente à velha:
— Continue a observá-lo. Volto em breve. Segredo, hein?... E tome lá para o seu rapé!
Atirou-lhe uma moeda e fugiu; enquanto Salomé, indo abrir a porta, considerava de si para si:
— O vigário estará sofrendo da cabeça, mas este médico, pelos modos, não regula melhor que ele...
E abriu a porta a Ângelo, que entrou da rua, mais taciturno e mais sonâmbulo do que nunca.
A criada foi ter ao seu encontro e deu-lhe as boas noites.
O infeliz não respondeu.
— Coitado!... pensou ela, considerando-o da cabeça aos pés com um olhar de lástima. Como ele está hoje!... Nem deu pela minha presença!...
E tomou-lhe o braço, para perguntar-lhe, gritando, como se falasse a um surdo:
— O senhor vigário quer que eu vá buscar a sua refeição? ...
E, como ele. ainda desta vez não respondesse, a boa velha afastou-se lá para a cozinha, resmungando:
— É melhor mesmo que o doutor o leve, para ver se o endireita!...
A intriga dos invejosos vingara finalmente. Ângelo era já pelos seus superiores considerado louco; o arcebispo suspendera-lhe as ordens por tempo indefinido, e ameaçava de excomunhão todo aquele. que fosse a Monteli em romaria devota.
Entretanto, ele parecia indiferente e alheio a tudo isso, e continuava escravo dos seus dolorosos enlevos, como se o seu espírito vivesse com efeito em um outro mundo, um mundo só dele conhecido, um mundo longe da terra e longe das suas duras melancolias religiosas.
E, cada vez mais taciturno e sombrio, seu vulto, quando agora vagava pelas estradas, já se não detinha aos gemidos dos desgraçados, nem ao riso alvar dos imbecis que escarneciam dele.
Salomé tinha razão: a cousa única que o preocupava agora, era o sono. Ângelo queria dormir tanto quanto possível, para sonhar muito. O delírio conquistara-o de todo. O sonho vencera a vida real.
Ângelo foi até ao seu quarto e parou junto à cama.
— Eis enfim o momento de dormir!... pensou ele. Dormir!—estranho modo de morrer! ... Sonhar! —estranho modo de viver!...
E atirou o chapéu para o lado, desfez-se do capote e continuou a meditar:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.