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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Os próprios fatos se encarregarão de dar­me a resposta, resumiu Gaspar, conseguindo ganhar a porta da sala. Resolve só por ti o que entenderes! Adeus.

E voltando para Ambrosina:

— Minha senhora, quando de novo precisar de meus serviços médicos, estarei às ordens...

— Obrigada, respondeu ela, com um riso de ironia. E quando Gaspar havia desaparecido, deliberou consigo: "Caro me hás de pagar!"

Depois colou a boca contra a de Gabriel, e exclamou num estremeção de volúpia:

Não me receberás mais este tipo!... não é verdade, meu queridinho?...

XXIII

A FESTA DE AMBROSINA

Gaspar esperou em vão por alguma carta, algum recado, qualquer palavra que viesse da parte de Gabriel. Decididamente, Ambrosina havia triunfado; entre o padrasto e o amante, Gabriel escolhera a última.

E o que havia nisso de extraordinário?... considerava o Médico Misterioso. Agora, o que convinha fazer com urgência era livrar o pobre rapaz, fosse lá como fosse, das garras de Ambrosina, porque Gaspar muito se enganava, ou ali estava uma mulher com todos os elementos para levar aquele às últimas degradações.

Gabriel com efeito ia absorvendo, nos braços da amante, o vírus traiçoeiro da ociosidade. Um aborrecimento profundo começava a corromper­lhe o caráter e a dispensar­lhe a energia; às vezes se quedava ele longas horas a olhar abstratamente para o mesmo ponto, sem coragem para cousa alguma, e só um afago mais violento de Ambrosina o fazia então voltar a si.

Mas estes mesmos se iam relaxando, à proporção que a convivência estabelecia entre os dois a inevitável saciedade. Gabriel, na vida que levava, só conhecia ricos ignorantes ou homens indiferentes aos gozos do espírito. O mundo dos artistas, dos intelectuais, o meio em que cada um vive de uma idéia e caminha firmando­se em um nome, conquistado pelos esforços de todos os instantes; esse meio não o conhecia ele, e o frêmito das vitórias do trabalho só lhe chegava aos ouvidos, como a longínqua música de uma batalha de estrangeiros.

Ambrosina, não obstante, insistia na sua idéia de dar uma festa. O Rêgo e o Melo Rosa encarregaramse de encomendar o jantar e tratar da decoração da casa. Ela escolheu um rico vestido de seda cor de creme, com o qual faria as honras da recepção; Gabriel distribuiu alguns convites, e, às cinco horas da tarde do dia marcado, principiaram a chegar os comensais.

Genoveva fora de véspera para ajudar nos arranjos da cozinha, e Alfredo apareceu logo que pôde largar o trabalho.

Exibiu o restaurado viúvo uma fatiota de brim branco, cujo apurado da goma dizia eloqüentemente os desvelos amorosos da sua nova companheira. Estava muito melhor de fisionomia e andava vivo e escorreito. De perfil, notava­se­lhe até um discreto princípio de abdômen.

O Melo chegou com um amigo, ao qual apresentou ao dono da casa, dizendo cousas mui agradáveis a seu respeito; e o Reguinho apareceu por último, de carro, e acompanhado por uma rapariga loura, de olhos pintados.

Esta circunstância não agradou muito a Gabriel, mas, como Ambrosina não via no fato intenção de maldade, e porque a rapariga tinha um todo acanhado e parecia portar­se com respeito, ele sacudiu os ombros e resignou­se. Além disso, não havia muito onde escolher, porque de onze convidados apenas aqueles se apresentaram. Um fiasco!

A filha do comendador, dissimulando o desapontamento, tocou antes da mesa o seu repertório de piano; e recitou uns versos, que lhe oferecera o Melo. Gabriel fazia servir os aperitivos e conversava vagamente com os convivas.

Às seis horas, acenderam­se os candeeiros de gás, e os convidados tomaram à mesa os seus componentes lugares. Principiou o jantar.

Notava­se constrangimento geral. Ambrosina, todavia, desfazia­se em obséquios e pedia que não tivessem cerimônia. Alfredo cercava Genoveva de solicitudes, falando­lhe de vez em quando ao ouvido. O Melo chamava­lhe a rir "Casal de pombinhos" e outras cousas que à matronaça não faziam bom cabelo, a julgar pelas suas olhadelas, repreensivas e cheias de conveniência, atiradas contra aquele.

Desenvolvia­se o jantar, e o acanhamento ia desaparecendo à proporção que as garrafas se esvaziavam. Ambrosina recuperava o bom humor e comia já com apetite. Alfredo elogiava o vinho e atochava­se de leitão assado.

— É o que se leva deste mundo! observou­lhe o Melo regaladamente.

E o tempo corria. Repetiam­se os pratos e os copos; iam­se animando as fisionomias, e o vinho dava afinal à reunião uma caráter ruidoso e alegre. A própria rapariga do Rêgo, a princípio tão esquerda, arriscava já uma ou outra frase com pretensões a pilhéria.

— O caso é ela enxugar um pouco! explicava o Rêgo; e prometia que lá para o fim do jantar estaria soberba.

— O senhor confunde­me.. respondeu a infeliz, abaixando maliciosamente os olhos e procurando ter graça.

Gabriel queixava­se de que faltava ali muita gente; dos seus convites só quatro vingaram.

Nestas ocasiões é que se conheciam amigos! sentenciou o Melo.

(continua...)

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