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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

As celas são em número de vinte e uma, e nem devem ser mais, porque também só vinte e uma podem ser no máximo as freiras do mosteiro de Santa Teresa. Além dessas, há apenas três reservadas para as noviças.

Não há enfermaria no mosteiro. A religiosa que adoece é tratada na sua cela e tem o direito de escolher o médico de sua confiança.

No seu aspecto interior, o convento apresenta o quadro da maior pobreza e humildade. Não se vêem ali nem ornamentos de arte, nem objetos próprios para o cômodo da vida. As freiras não têm ao menos bancos e cadeiras em que se sentem e repousem. Sentam-se e descansam no chão.

Reina a mais perfeita igualdade entre as filhas de Santa Teresa. A superioridade da priora sente-se somente na direção e governo do mosteiro. Em tudo mais são irmãs, e vestem as mesmas roupas, um escapulário pardo, hábito também pardo e manto branco, todos de sarja, uma touca branca e um véu preto ou branco, conforme elas são ou coristas, ou conversas e noviças. Calçam todas simples sandálias e não trazem meias.

As freiras não têm escravos nem criadas para seu serviço: são as servas de si mesmas. Outrora, aproveitavam o tempo que não consagravam à oração para entregar-se a delicados trabalhos de arte, e eram notáveis no Rio de Janeiro em obras de flores artificiais.

O Bispo d. frei Antônio do Desterro, quando se opunha a que essas religiosas fossem sujeitas à regra de Santa Teresa, porque a reputava perigosa em um clima como o do Brasil, dizia muitas vezes que o convento das carmelitas reformadas poucos anos se poderia conservar como tal, porque teria de tornar-se em um hospital de inválidas.

Entretanto, a regra severa de Santa Teresa é escrupulosamente observada no mosteiro, com a única modificação do tecido do hábito; os preceitos, os jejuns, o silêncio e a devoção austera se cumprem com o maior zelo, e aquelas esposas de Cristo não desanimaram ainda.

A morte inevitável tem visitado repetidas vezes o convento e feito secar com o seu enregelado sopro muitas flores daquele jardim do Senhor. Novas religiosas, porém, vão logo pedir o véu das carmelitas; donzelas na primavera dos anos correm a entrar no mosteiro, e vêem sem pesar a tesoura da austeridade cortar seus negros e longos cabelos, que lhes caem aos pés em enchentes de belos anéis. E ainda atualmente, enfim completo se acha o número das freiras de Santa Teresa, tendo apenas, há quatro meses, começado o seu noviciado a última candidata que se apresentou.

O exame do obituário do convento mostra igualmente que a regra de Santa Teresa não encurta a carreira da vida às suas filhas; das primeiras religiosas que tomaram o véu, a maior parte chegou a uma idade muito avançada. É, porém, notável que ultimamente se comece a observar o contrário, e que as novas freiras vão prematuramente descendo a povoar os jazigos do mosteiro.

Esta observação pode talvez despertar considerações que se referem às condições higiênicas, cuja falta a cidade do Rio de Janeiro experimenta, e ainda aos novos costumes e à educação amolecida e defei tuosa que recebe a mocidade.

Basta. Não perturbemos por mais tempo a solidão e o silêncio desse asilo religioso e respeitável. Desçamos o monte de Santa Teresa para subi-lo mais tarde uma outra vez, quando em passeio mais festivo e brincalhão eu tiver de levar-vos a outros sítios onde o riso e as alegrias do mundo podem cabidamente fazer-se sentir.

Qualquer que seja a minha opinião individual sobre os conventos de freiras, onde votos perpétuos se pronunciam, onde não há recursos para um arrependimento possível, e então se paga a Deus à força o que Deus só aceita quando se lhe dá com o coração cheio de vontade; qualquer que seja a minha opinião sobre esses mosteiros de freiras, que são para muitas, sem dúvida, asilos tranqüilos e enlevadores, e que podem também ser para outras muitas sepulturas em que se enterram vivas, prisões onde se abafam os gemidos e se escondem as lágrimas que pareceriam sacrilégios; qualquer que seja a tal respeito a minha opinião, repito, eu rendo tributos de verdadeira admiração a essas criaturas que se tornaram proscritas do mundo para aproximarem-se do Céu, a essas venerandas religiosas que, no recolhimento de sua devoção, de suas orações, de sua penitência, pedem a Deus ainda mais por nós do que por si mesmas.

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Convento de Santo Antônio

I

A FALANGE monástica, organizada e disciplinada por S. Francisco de Assis, falange que no século XVIII chegou a contar 115 mil frades e 28 mil freiras, e que no século anterior não podia ser muito menos numerosa, devia naturalmente lembrar-se de mandar uma expedição à cidade do Rio de Janeiro, onde tinha conquistas a fazer e vitórias a alcançar no serviço de Deus.

(continua...)

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