Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Mas, preciso é repetil-o, o que tinha até então defendido a donzella não era a razão, era o instincto; não era a consciencia do dever, era o sentimento do pudor ; e essa barreira que se oppunha á satisfação do empenho criminoso de Jorge de Almeida, tinha desapparecido com o concurso involuntario de Fábio.
O pudor soffrêra apenas uma angustia rapida e instantanea quando Jorge beijara o ramalhete de violetas : a angustia estava passada, a grande difficuldade vencida.
E diante da consciência do dever, Juliana apadrinhava-se com um pretexto, dizendo a si mesma que não fora ella a culpada da concessão da entrevista.
A paixão inventava ainda outros sophismas para escusar um passo que era uma falta gravissima, um erro que ganhava já cora um previo remorso a alma de quem o commettia.
Juliana lembrava-se de que não tivera tempo de esclarecer Jorge de Almeida sobre o caso imprevisto que lhe dava logar a suppôr que seria esperado no jardim naquella noite, e contando que elle viesse ao encontro tão almejado, receiava que Jorge, se inutilmente a esperasse, resentido e afílicto, pudesse chegar a fugir-lhe e a esquecel-a.
E demais aquelle extremoso mancebo, que pouco antes viera, tão contente e feliz, apresentar as cartas em que seus pais abençoavão a escolha do seu coração, e se apressavão a manifestar taes sentimentos á própria familia pela sua amada, aquelle mancebo que assim se prendia pela sua honra e pela honra de seus pais, não deveria alcançar também uma prova immensa da mais completa confiança?...
A donzella sophismava perante o tribunal justissimo da sua consciencia, como uma delinqüente que treme aos olhos do seu juiz.
Juliana não comprehendia que uma mulher exaltada por um amor violento e ameaçada pela seducção precisa defender-se ainda mais dos impetos de sua mesma paixão do que dos laços que lhe arma a habilidade e a experiencia sinistra do seductor.
E elle ahi estava só, attenta e muda, escutando o som monótono do pendulo que vibrava, calculando os minutos que passavão, e ouvindo com abalo e commoção o dobre do sino que marcava na egreja vizinha, de quarto em quarto de hora, a medida do tempo que se adiantava.
E ahi ficou immovel, mas anhelante, cheia de anciedade, de receio e de temores, até que finalmente ouvio o signal da hora aprazada e suprema.
— Duas horas!
XVI.
Aquelle dobre de um sino lugubre, que annunciava um prazo de amor desvairado, fez Juliana levantar-se a cahir de novo na cadeira como ferida por um choque electrico.
Logo depois commovida e tremula foi a uma porta da sala do seu toucador encostar o ouvido temeroso para assegurar-se de que sua mãi dormia, e, voltando logo, encostou-se cuidadosa á janella que deixara meio aberta, e esperou agitada e inquieta.
Não esperou muito tempo.
No silencio da noite distinguio-se o ruido de uma chave com que uma cautelosa mão abria o portão de ferro do jardim, procurando abafar o estalo da fechadura.
Juliana nem ao menos reflectio que essa chave estranha que facilitava a entrada para o jardim da sua casa era o indicio vehemente de um projecto premeditado com um desvelo minucioso, que tinha sabido preparar todas as condições para a sua facil execução.
Um momento depois de aberto o portão, a areia gemeu sob os passos de alguém que de manso vinha aproximando-se do terraço, e em breve uma voz meiga, mas contida pelo receio, murmurou baixinho :
— Juliana!...
Jorge de Almeida tinha visto a janella entreaberta, e adivinhou que a sua imprudente noiva o esperava naquella sala.
Juliana, temerosamente ainda, como porém se sentisse irresistivelmente attrahida pela voz terna que a chamava, deixou a janella, abrio devagar a porta do terraço, deu um passo para tora, e vio em baixo e junto da escada o vulto de um homem embuçado em uma capa negra.
A donzella não poude reprimir um movimento de temor.
— Sou eu, Juliana! disse Jorge com amor; vem ! vem, minha bella noiva!
Juliana agarrou-se ao corrimão da escada e desceu com passos mal seguros, parando de degráo em degráo para respirar e alentar-se.
Jorge de Almeida ajoelhou-se, e beijou com respeito a mão que Juliana deixara livre.
— Juliana ! minha Juliana !... balbuciou elle.
Em vez de responder, a donzella chorou.
Oh! não derramava ainda lagrimas de acerbo arrependimento; era a sua innocente pureza de virgem que se resentia daquelle primeiro e violento sacrificio.
Era a mimosa flor do valle que, tocada pelo primeiro tufão da tormenta que rugia ao longe dobrava já sua haste delicada, embora não tivesse murchado ainda.
— Oh! Juliana! disse Jorge com ternura; o teu pranto é provavelmente uma injuria que fazes á minha honra! No branco céo de tua alma de donzella innocente e pura expandio-se talvez a nuvem escura e feia ]de um temor que me avilta! Quem sabe se confundes um amante respeitoso e dedicado com um seductor infame!
Juliana!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.