Por José de Alencar (1872)
- Quicé mostra o caminho.
- Pois vai indo que eu já te apanho.
Este rápido diálogo travou-se no meio do terreiro. Entrando em casa, viu Berta a amiga na sala e perguntou-lhe:
- Onde deitou meu chapéu, Linda?
Foram estas palavras que estremeceram Brás, e ainda mais quando ouviu a resposta de Linda.
- Em cima de minha cama.
Apoderou-se a vertigem do idiota, que tombou da árvore ao chão.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
Segundo Volume
I
O bugrezinho
Em 1826, a mais bonita moça que havia nas vizinhanças de Santa Bárbara, era Besita.
Quando ia à missa aos domingos e dias de guarda, todos se voltavam na rua para vê-la passar. Festa em que ela não aparecesse, perdia toda a graça, até os velhos achavam desenxabida a patuscada.
Filho de fazendeiro, que tinha a mostrar bonita mula arreada de prataria, lá passava duas e três vezes por dia defronte da casa da moça, que morava em companhia do pai, quase ao sair do povoado, bem perto de nhá Tudinha.
Entre os mais assíduos, nenhum levava as lampas a Luís Galvão, que era naquela época um chibante mocetão de vinte anos. Raro dia, não vinha ele ao povoado e não achava pretexto para apear-se em casa do velho Guedes, pai de Besita.
Apesar da roda que lhe faziam tantos rapazes e da balda que há em terra pequena de bisbilhotar tudo, não aparecera o menor mexerico a respeito da moça, e quando se falava dela era para gabar o seu modo sério e o recato que sabia guardar com todos, o que mais admirava por ter perdido a mãe ainda criança, e viver quase sobre si, pois o velho mal podia com seus achaques.
Nesse tempo servia de camarada a Luís Galvão um rapaz de pouco menos idade, que o acompanhava constantemente em passeios e viagens. Era Jão, a quem os outros se tinham habituado a chamar de Bugre, pela tez bronzeada, que distinguia aquela raça indígena.
Esse rapaz fora criado nos Pilões, antiga fazenda de Afonso Galvão, pai de Luís; e aí viera ter de um modo singular e misterioso.
Um dia, no mais ardente da calma, quando os enxadeiros descansam na roça à sombra das árvores esperando o jantar, e o resto da gente recolhe às habitações, acaso chegando o velho fazendeiro à janela viu parado no terreiro deserto um sendeiro sobre o qual se encarapitava uma figurinha que à primeira vista pareceu-lhe um macaco.
Logo, porém, reconheceu que era uma criança, de pouco mais de um ano. Apesar do natural pacato do rocim causava espanto que o pequerrucho se pudesse conservar em cima dele, escanchado na cernelha e agarrado às crinas.
- Que quer você, pirralho? perguntou o velho Galvão.
Volveu a criança para o fazendeiro uns olhos negros como carbúnculos, e ficou a mira-lo com o ingênuo pasmo da infância. Como se verificou depois, o menino não falava ainda, talvez por ser tarde nele o desenvolvimento dessa faculdade.
Nunca se pode saber donde saíra aquela criança; como chegara até o terreiro sem darem por ela; se viera só ou alguém a trouxera. Também foram inúteis as pesquisas que se fizeram para descobrir os pais, ou ao menos algum indício de quem poderiam ser.
Como de costume, apareceram várias conjeturas e invenções, cada qual mais engenhosa. Uma velha, muito versada no Novo Testamento, afirmou que esse menino era o Anticristo e o sendeiro a própria besta do Apocalipse, descrita por São João. Outra jurava ser o caçula do diabo cocho que se metera na pele do bugrezinho, e andava fazendo estrepolias pelo mundo.
À parte essas e outras caraminholas de que os visionários encheram a cabeça da gente ignorante, correu entre as pessoas sisudas uma versão, que ninguém soube donde proveio, e naturalmente formou-se de uma misteriosa agregação de circunstâncias, como sucede sempre às rapsódias populares.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.