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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Ah! Compreendo. Lembrava-se de sua mãe. Nessa poesia também eu creio, disse Guida com terna expressão.

- Dirá a senhora que é uma infantilidade cair assim um homem feito, um doutor, a sonhar com o sol alto e os passarinhos a cantar. Mas a isso respondo, que a natureza humana é esta mesma contradição. O menino tem “homenices”... Não repare no termo; tenho um mau costume de inventar uma palavra quando não acho outra já feita para exprimir meu pensamento. Mas dizia eu que o menino tem suas “homenices” que o tornam insuportável; portanto era preciso que o homem tivesse suas “meninices”, que o tornam ridículo. 

- Pensar em sua mãe ausente é uma coisa tão santa!

- Mas creio que ainda falta um desejo? 

- Ainda; não me esqueci. Ia perguntar-lhe o que representa o desenho... Sabe; aquele que o senhor fazia à janela?...

- Não adivinhou?... 

- Não. 

- Quis mandar à minha mãe uma lembrança de meu sonho. Se eu tivesse talento de retratista reproduziria suas feições. Fantasiei uma moça da corte. 

- Favoreceu o original, observou Guida. Galanteria de artista. 

- Não era possível. Ainda que eu fosse Rafael. 

- O melhor juiz sou eu. À vista do desenho...

- Eis a dificuldade. Já ele está em São Paulo. 

Foi interrompida a conversa pelo encontro com o rancho dos passeantes, a poucos passos de distância da casa. 

Talvez tenha alguém a curiosidade de saber o que era feito do impertérrito Sr. Benício durante todo esse tempo. Em posição e a jeito de proteger os dois moços com o formidável guarda-sol verde-gaio, acompanhou-os passo a passo sempre da banda do poente. 

Refocilando no gosto incomparável de obsequiar o próximo, caíra numa espécie de êxtase. Imaginava-se, não em cima do machinho a trotar, mas recostado nas almofadas de um coche, acompanhando um casamento. 

Que glória não seria a dele, quando dissesse aos convidados: 

- Eu os resguardei com o meu chapéu de sol, no primeiro dia do seu namoro! 

 

XX 

 

Terminara o jantar em casa do Soares. 

O crepúsculo da tarde cambiava-se com o frouxo lampejo da lua que assomava por trás das serras. 

Erguendo-se da mesa, os convidados espalharam-se pelo jardim, uns para gozarem da frescura e beleza da ave-maria campestre; outros para se recrearem com o passeio e o movimento; alguns maquinalmente, por imitação. Mrs. Trowshy traçando o braço de Guida e recitando-lhe uns versos de Shakespeare atravessou o jardim: Come, gentle night, come, loving, black brow’d night,  Give me my Romeo, and when he shall die, Take him, and cut him out in little stars, 

And he will make the face of heaven so fine, That the world will be in love with night And pay no worship to the garish sun. 

 

Encontrando Ricardo, a mestra parou para dizer-lhe em francês: 

- Veja que injustiça, senhor doutor, Guida não gosta destes versos. 

- Ouça! disse Guida, e repetiu os versos. 

- Se os lesse, poderia dizer alguma coisa, respondeu Ricardo. 

- Pois eu pensava que tinha excelente pronúncia, acudiu a moça com ar zombeteiro. Minha mestra diz que pareço uma inglesa; salvo quando eu repito o nome dela – “missis Trixa”. Aí acha-me horrível. 

- Trowshy! emendou gravemente a mestra que pouco entendia de português. 

- Mas a culpa não é de sua pronúncia: é do meu ouvido que ainda não se habituou, nem creio que se habitue nunca, a essa língua mais de engolir que de falar! 

- Pois eu vou traduzir-lhe os versos ao pé da letra, se me permite; “Vem, gentil noite, vem, amável noite, vem, amável e escura noite; dá-me o meu Romeu e quando ele morrer, tomai-o, cortai-o em estrelinhas, e ele tornará o céu tão belo, que todo o mundo se apaixonará pela noite, e não pagará mais tributo ao garrido sol”. Não são magníficos? Ricardo sorriu: 

- São originais, pelo menos. 

(continua...)

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