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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Cândido não acreditara nas palavras de Anacleto; compreendera que as lágrimas do velho exprimiam antes um grande sofrimento moral do que uma dor física; por isso mesmo respeitava o segredo daquele padecer; mas observava curioso o que se passava então no “Céu cor-de-rosa”.

Estava-se aí tecendo uma dessas intrigas de salão... era uma mina que se abria; qual deveria ser a vítima?...

Moço e inexperiente, Cândido nada pôde concluir de suas observações: a assembléia toda se mostrava, como desde o começo da noite, alegre e festiva; Mariana sorria-se meigamente para Henrique; Celina estava bela e contente, mesmo mais contente do que ordinariamente parecia.

No meio de tanto prazer, como achar a origem de uma grande tristeza?...

O velho Anacleto chegou pouco depois, e Cândido ficou ainda admirado ao vê-lo prazenteiro dirigir-se a todos, gracejando com as senhoras e animando a sociedade já um pouco fatigada.

Na alma de Cândido apareceu este pensamento; “Quem sabe se alguns dos que se estão aqui rindo alegremente, não terão ido chorar, às ocultas, como o velho Anacleto?”

Pela primeira vez em sua vida ele sentiu que, nas sociedades, o rosto se mascara com sorrisos... com olhares... e com palavras.

Henrique e Mariana separaram-se. Salustiano ia dirigindo-se ao primeiro, tendo porém os olhos fitos na filha de Anacleto, que, mal podendo conter um movimento de terror, foi direita ao lugar onde estava Cândido.

Salustiano voltou imediatamente à sua primeira posição.

Mariana falou a Cândido. Sua voz parecia comovida.

– Quer fazer-me obséquio de dar-me o braço?

– Oh! com sumo prazer.

Um homem pobre agradece com tanto reconhecimento qualquer pequenina prova de consideração!...

– Para onde quer que a acompanhe, minha senhora?... prefere passear nas salas, ou ir ao jardim?..

– Vamos ao jardim.

Cândido observou que o braço de Mariana tremia.

Quando chegaram ao jardim, a viúva e o mancebo entraram no caramanchão, e ela, sentando-se no banco da relva, disse:

– Sente-se ao pé de mim... conversemos.

Cândido sentou-se curioso; Mariana hesitava.

Aquela mulher, de caráter tão forte, ia cumprir as ordens de um homem que não era seu pai, nem seu marido, nem seu irmão. Agora fraca e humilde, desempenhava o papel de escrava, obedecendo ao aceno de seu senhor.

Esteve em silêncio por algum tempo a devorar seu cálice de amargura ali, naquele banco de torturas, onde pouco antes seu pai havia tanto chorado por causa dela.

Enfim, com esforço indizível tomou a mão de Cândido, apertou-a entre as suas, e disse:

– Este mundo... este mundo, senhor, é um inferno!...

– Para os infelizes, senhora.

– Oh! e onde estão os seus bem-aventurados?... ninguém julgue da paz do coração pelo sossego e prazer do semblante; quase sempre quando a alma chora lágrimas de sangue, os lábios sorriem e os olhos brilham!...

– Eu compreendo que às vezes sucede assim.

– Este mundo, sr. Cândido, é um tirano, um déspota inexorável, que todo ornado de prejuízos e de quimeras, impõe-nos o dever de respeitar seus prejuízos, e de adorar suas quimeras! e ai daquele que resiste!...

– É verdade... é verdade.

– Os homens curvam-se a idéias falsas e indignas deles, e as desenvolvem porque, enfim, força é ser escravo do mundo!

– Não, isso não, minha senhora; o mundo não pensa, são os homens que, pervertidos e desmoralizados, concebem essas idéias. O mundo não tem culpa de ser assim, os homens o vestem com essas roupas.

– E o remédio?...

– O remédio é instruir e moralizar o povo.

– E enquanto ele não se instrui nem se moraliza?...

– Deve-se bradar com força contra aqueles a quem compete moralizá-lo e instruí-lo.

– Sim, mas o primeiro que se erguer contra um prejuízo que reina, será vítima, e ganhará em vez de palma de vitória a coroa de martírio.

– Embora. Sócrates morreu, porém suas idéias vingaram.

– E quem quereria ser Sócrates?.

– Oh! minha senhora, perdoe-me; mas julgo melhor fazer de outro modo a pergunta.

– Como?...

– Quem poderia ser Sócrates?...

– Pois aceito: quem poderia sê-lo?...

– Um bom governo.

A viúva pensou alguns instantes; a conversação ia tomando caminho contrário ao que ela queria levar; finalmente, começou de novo:

– E enquanto a revolução moral não se faz, enquanto a sociedade não reforma os seus costumes, o que hão de fazer os homens, o que farão principalmente esses entes fracos, as mulheres, que desde que nascem até que morrem precisam sempre de um apoio na vida; o que hão de fazer, senão curvar-se a esses erros, a esses prejuízos?...

– Uma grande mulher responde por mim, senhora; Mme. de Stael – penso que foi ela – escreveu em um livro: “Os homens devem arrostar a opinião pública, e as mulheres curvar-se a ela”. Eu digo o mesmo dos prejuízos de que fala.

– Oh! mas é horrível!

– Eu o sinto, minha senhora.

(continua...)

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