Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
“Raquel!... Não nos pudemos falar a sós no dia em que fui à corte; e eu tinha tantas coisas para te dizer!... vem hoje Raquel, dormiremos juntas, e eu te contarei uma história bem singular: vem hoje, Raquel, ver a tua amiga — Honorina.”
Nesse dia, não; mas na manhã do seguinte, Honorina abraçou a Raquel.
XVII
Canto ao luar
Um dia inteiro se tinha passado sem que Honorina e Raquel tivessem podido estar a sós alguns momentos. A casa de Hugo se achava cheia de visitas. Lucrécia se havia apresentado às nove horas da manhã. Otávio um pouco depois; às onze horas do dia, Venâncio com sua família, e Brás-mimoso; e, enfim, Félix. Era preciso, pois, que Honorina se repartisse por todas aquelas senhoras, que agradasse àqueles homens, que, em suma, desse alma à sociedade reunida em casa de seu pai.
O dia foi correndo prazenteiro e belo. Ema, apesar de não compreender como era possível tolerar-se a liberdade que aqueles homens tomavam com as senhoras, conversando, gracejando e lisonjeando a todas elas, não podia deixar de encher-se de orgulho, vendo a graça e a nobreza com que se portava a encantadora neta.
O jantar serviu-se tarde; e, já ao anoitecer, a sociedade, levantando-se, derramou-se pelo jardim. Ema, que não podia expor-se ao ar frio da noite, ficou na sala, acompanhada de Venâncio e de Jorge, o pai de Raquel.
Hugo de Mendonça passeava com Tomásia.
Honorina, defendida pela amizade de Raquel, vigiada pelo ciúme de Lucrécia, perseguida pelos impertinentes obséquios de Otávio, espantada das loucas pretensões de Brás-mimoso e do ridículo proceder de Manduca, caía às vezes em doces meditações, nas quais vinha quase sempre a imagem do moço loiro tomar o posto mais nobre.
Félix dava o abraço à sua querida prima; e, único feliz entre tantos, esquecia-se, conversando com ela, do tempo que passava, dos olhos que o cercavam, do passado, do presente e mesmo do futuro.
Porque o homem, que passeia com a mulher que ama, é um ente excepcional, cujo mundo não passa dela e dele; cujo mundo é fechado pelo horizonte de amor... horizonte belo, cor-derosa, brilhante, limitado... tão limitado, que dentro dele só cabem dois corações, somente soam as palavras de duas bocas, somente pensam duas almas; troca-se entre ambos uma linguagem, um idioma de fogo, e sempre novo, que se fala pelos olhos e se entende pelo tremer dos braços ou pelo palpitar dos corações; tudo que os cerca está fora do seu mundo, não tem nele existência possível; aí só vivem os dois... e amor.
Depois de algum tempo de passeio, as senhoras recolheram-se. Hugo foi ajuntar-se e tomar parte com Venâncio e Jorge na conversação de sua mãe, que, entusiasmada, se exaltava, fazendo a apologia das belezas, dos prazeres e dos puros costumes do seu tempo.
Otávio uniu-se a Félix, e ambos desapareceram pelas mais obscuras ruas do jardim, como se os ocupasse objeto de muito subido interesse.
Brás-mimoso e Manduca passeavam cada um para seu lado; mas na volta de uma rua encontraram-se, talvez contra a vontade de um deles.
Aqueles dois completos namorados sem ventura eram, em verdade, a personificação de duas classes de homens, que todas as senhoras devem mais ou menos ter encontrado no decurso de sua vida. Vejamos se, dando conta do caráter de cada um deles, poderemos ter a felicidade de chegar ao ponto de que cada moça que tiver estas linhas diante de seus belos olhos, possa dizer consigo ao recordar a coleção de seus impertinentes adoradores: “Brás-mimoso se parece com este; Manduca é o retrato daquele.”
Há um sentimento... oh! seria profanação dar-lhe o sagrado nome de amor. Comecemos, pois, de outro modo.
Há homens detestavelmente vaidosos, homens insolentes, que não vêem na mulher senão a mais fraca e humilde das criaturas; homens que não amam nunca, pois são incapazes de tão nobres sentimentos, mas que trabalham para ser e se ufanam de parecer amados. A alma desses homens é torpe, é alma de lodo; e a mulher infeliz, a quem requestam, é por força a vítima de sua vanglória; porque, de duas uma, ou ela é bem desgraçada para corresponder a fingidos extremos, ou deles sabe zombar. No primeiro caso, lá vão os miseráveis ostentar seus triunfos em toda a parte... nas assembléias, nos passeios e no teatro eles desfiam a atenção do público para que todos sintam suas vitórias, invejem suas felicidades, proclamem-nos como conquistadores, embora à custa do nome e do crédito da vítima!... e, quando uma senhora os tem tratado de maneira que em sua própria vaidade não ousam supor-se felizes, eles ousam, contudo, por jactância e por vingança impor... fingir... dizer sê-lo! para eles o nome e a fama de uma mulher não é mais que a flor, que importa pouco ser quebrada, murcha e perdida, contanto que sirva um momento para ornar a coroa de seus improvisados triunfos.
Brás-mimoso, com ser tão ridículo em si mesmo, era um desses homens.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.