Por Lima Barreto (1911)
Tinha direito perante a sua própria consciência de contribuir para semelhante ruína? Sentiu perfeitamente que este afrouxamento da lei e da autoridade tinha por fim recrutar dedicações aos ambiciosos antipáticos à opinião. A coação legal do Estado fizera-se, para uma mascarada eleitoral, ameaça de valentão... No afã de fingir que Bentes era desejado, os aparelhos de compressão governamental não tinham o cinismo de impô-lo à força de baionetas. Tergiversavam, simulavam uma escolha regular; era a homenagem que o vício prestava à virtude. Como a opinião não se revoltava? Tinha medo?... Parecia impossível, mas se não tivesse... Crime maior lhe pareceu a coação que se fazia à consciência da nação.
Com que direito? Em nome de quê? Não eram interesses secundários que se sobrepunham, com baionetas, garruchas, facas, à manifestação de vontade de um país inteiro? Não era um sindicato profissional que queria tirar de Bentes os lucros de seu monopólio? A maldição viria sobre ele e sobre ela também que, por simples vaidade, não falava claramente... Mas, se fizesse, que havia de ser, que adiantaria? Numa não voltaria deputado; ela não seria a esposa do eloqüente parlamentar; as outras não a olhariam com respeito e a sua fortuna não teria essa moldura; seria a fortuna vulgar, corriqueira, da mulher de um negociante qualquer.
— Esse caso vai ter eco na Câmara — disse ela.
— Penso também, A oposição vai aproveitá-lo e fazer um cavalo de batalha.
Não me meto na discussão.
— Não faça isso... É bom sempre dar uns apartes... Naturalmente vão censurar a polícia.
— Qual polícia! Você não reparou que o homem é protegido do Campelo! Vão censurar a todos nós, atacar-nos.
— Os comentários de Fuas encaminham um pouco a opinião que você deve ter. Você leu?
— Li e já sei dos casos que tem havido em outros governos.
— Os oposicionistas podem achar certas diferenças.
— Quais são?
— É que o de hoje vivia a extorquir dinheiro à mão armada, desde que o “Velho” deixou o governo, com ciência e aviso à própria polícia que não tomou providências. Você não acha?
— Que tem isso?
— Você sabe bem... Você não está na Câmara? A polícia não tomou providências porque vocês....
— Nós? Eu, não.
— O partido de vocês...
— Campelo.
— Sim, Campelo o acoitava.
A mulher retirou-se e Numa um instante considerou a gravidade dos fatos. A abdicação deles, os políticos, tinha afrouxado senão cortado todos os laços sociais. Ficou surpreendido por ter verificado isso, ele que, em Catimbao julgava de somenos essas coisas de assassinatos...
Na sala em que estava, ouviram longinquamente os ruídos das ruas. os zumbidos dos elétricos, o buzinar dos automóveis, o pegão dos mercadores, mas, assim mesmo, sentia a palpitação do Rio de Janeiro, capital do Brasil, cheia de comodidades, mas de oposição e de crítica.
Embora no lugar em que estava não visse o portão, Numa teve idéia de que ele fora aberto. Devia ser uma visita. No começo eram raras; mas, ultimamente, se multiplicaram. Não havia projeto em que o seu voto não fosse solicitado por uma meia dúzia de empenhos. Muita vezes, os pedidos eram contrários à sua disciplina partidária, e negando-se a atendê-los criava antipatias. Como queriam que fossem independentes? De um lado, o partido, e de outro, os interessados? Como havia de ser? Para não errar, para a sua segurança, votava sempre com o partido.
Os jornais e o povo debochavam o Congresso, faziam-lhe as mais acerbas críticas e cobriam os deputados de epítetos os mais desprezíveis. Não se entendia o povo! Dizia isso, proclamava a inutilidade do Parlamento, desmoralizava-o; entretanto, queria que resistisse aos assaltos, às ameaças do poder. Estariam os deputados muito avisados, se lhe seguissem os conselhos. Seriam tocados da Câmara, expulsos, e então não valeria mais nada o Congresso. A vista entrou; era Mme. Forfaible. Edgarda acompanhava a generala e conversavam garrulamente. Numa teve pressentimento que ela vinha interessar-se pelo projeto das desacumulações. Que diabo! Não sabia como votar!... O governo, uma hora fazia questão, outra diziam à socapa que vetaria... Temia incompatibilizar-se e ficar incompatível, tanto mais que Bentes parecia ser contra. Tinha mesmo dito: “Eu sou pelas desacumulações bem entendidas”.
A senhora entrou e toda a sala animou-se com a sua presença.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.