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#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

Estava ai o seu forte; o mais eram acessórios de modinhas, de tocatas de violão, de cartas, de suspiros — todo um arsenal de simulação amorosa, que ele, sem caráter e, por demais, cínico, sabia empregar, como ninguém.

Que havia de ser dela, agora, desonrada, vexada diante de todos, com aquela nódoa indelével na vida?

Sentia-se só, isolada, única na vida. Seus pais não a olhariam mais como a olhavam; seus conhecidos, quando soubessem, escarneceriam dela; e não haveria devasso por aí que a não perseguisse, na persuasão de que quem faz um cesto, faz um cento. Exposta a tudo, desconsiderada por todos, a sua vontade era de fugir, esconder-se. Mas, para onde? Com a sua inexperiência, com a sua mocidade, com a sua pobreza, ela iria atirar-se à voracidade sexual de uma porção de Cassis ou piores que ele, para acabar como aquela pobre rapariga, a quem chamavam de Mme. Bacamarte, suja, bebendo parati e roída por toda a sorte de moléstias vergonhosas.

Pensou em morrer; pensou em se matar; mas, por fim, chorou e rogou a Nossa Senhora que lhe desse coragem. Se pudesse esconder?... — acudiu-lhe repentinamente este pensamento. Se pudesse "desfazê-lo"? Seria um crime, havia perigo de sua vida; mas era bom tentar. Quem lhe ensinaria o remédio? Correu o rol de suas poucas amigas; e só encontrou uma: Dona Margarida.

Nisto, sua mãe gritou-lhe do fundo da casa:

— Clara, estás dormindo? Olha que estão batendo na porta.

— Já vou, mamãe.

Era o estafeta dos telégrafos, que trazia um despacho do pai, comunicando que, devido a ter de fazer o enterro de Meneses, chegaria mais tarde, mas viria jantar.

Ela e a mãe não esperaram; jantaram antes. Clara, muito preocupada com o "remédio" que ia ver se Dona Margarida lhe arranjava; e Dona Engrácia, aborrecida com a morte de Meneses.

— Pobre Meneses! — dizia ela. — Morrer assim, no mato! Por que ele não foi pra casa? Era bem velho, não era, Clara?

— Devia ter mais de setenta anos.

— Isto não quer dizer nada. Há quem dure mais... Você tem reparado, Clara, que, de uns tempos para cá, está nos acontecendo uma porção de coisas más?

— Nem tantas! Duas só: a morte do padrinho e...

— Você acha pouco e, ainda por cima, da forma que elas nos chegam! Deus nos proteja! Tenho para mim que alguma está para nos acontecer".

— Qual, mamãe! Tudo isto é doloroso, mas são fatos que se dão...

— Felizmente, esse azar de Cassi se foi. Que vá pro diabo que o carregue!

Clara teve vontade de chorar; mas conteve-se. Estava resolvida: amanhã, pediria um "abortivo" a Dona Margarida.

Joaquim dos Anjos chegou e narrou tudo o que acontecera com Meneses e Leonardo, Aquele, por não ter ninguém que lhe fizesse o enterro, ele o fizera; e Leonardo, logo que foi afastada a hipótese de crime e ficou sabido o seu estado mental, entregaram-no à mulher. Ao chegar em casa, acompanhado de Dona Castorina, foi que Flores caiu em si e teve consciência perfeita do fim do amigo. Estava lúcido, bom; estava o verdadeiro Leonardo, que chorou o falecimento do camarada, sem mescla de delírio, pressentindo que, nele, havia aviso do seu próximo fim.

Engrácia ouviu a narração de Quincas e, ingenuamente, perguntou-lhe:

— Esse Leonardo é mesmo homem de inteligência, Quincas?

— É, Engrácia. Por quê?

— Por que ele então bebe tanto?

— Quem sabe lá? Vício, hábito, capricho da sua natureza, desgostos, ninguém sabe! — observou o marido.

— Eu vejo tanto doutor por aí que não bebe.

— Você pensa que todo doutor é inteligente, Engrácia?

— Pensei.

Clara ficou admirada de que a opinião da mãe não fosse exata. Ela também, muito popular e estreita de idéia, admitia que toda a espécie de doutor fosse de sábios e inteligentes.

Joaquim, dizendo-se cansado, fora logo deitar-se; e, em seguida, a sua mulher e filha.

(continua...)

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