Por Aluísio Azevedo (1895)
E a graça é que a pobreza, a que ele se via agora reduzido, longe de ser uma barreira de resguardo contra aquela invasão, era como que um novo atrativo ajuntado aos seus encantos. E quanto mais fugia delas, com tanta mais insistência o rebuscavam; quanto era maior a sua indiferença, tanto maior o empenho que elas faziam. Se as tratava pelo modo por que tratou Ernestina, se as ameaçava, se lhes chegava a bater, como fizera a diversas, então é que o não deixavam de todo e a perseguição contra o belo desgraçado tomava um caráter horroroso.
E ele, que a princípio com isso se divertia, chegando até a julgar-se lisonjeado no seu amor-próprio, já por último andava sinceramente aborrecido com tanto amor; já o irritavam os beijos soluçados e as delirantes palavras de ternura. - Ah! não queria ouvir falar em paixão, e fugia de certas mulheres como um criminoso foge da polícia.
A Ernestina, então, uma atriz de segunda ordem em tudo, mas que não perdia as esperanças de conquistá-lo, essa o trazia num cortado. Era bispá-la, quebrava ele a primeira esquina, metia-se no primeiro corredor, enfiava pela primeira escada, e, apesar disto, não conseguia escapar-lhe, porque o demônio da mulher parecia ter faro de cão matreiro.
Quando ele chegou à casa de Leonília, disseram-lhe que esta havia-se mudado para um hotel na Tijuca, porque o médico assim lho ordenara.
- Está doente? perguntou Teobaldo.
Responderam-lhe que sim, que lhe aparecera febre, uma enorme sobreexcitação nervosa, fastio e dores na caixa do peito.
Entrou na alcova: O isolamento desta, em vez de o impressionar desagradavelmente, trouxe-lhe ao contrário um certo prazer íntimo de quem se vê livre de uma maçada que já tinha como inevitável.
Deitou-se na cama e tomou um livro que estava sobre o velador. Dentro do livro havia uma carta sobrescritada para ele.
- Escreveu-me, mas não se animou a remeter-me a carta, pensou, abrindo-a.
Teobaldo.
És um miserável. Melhor seria que, em vez de procederes infamamente para comigo, como acabas de proceder, me houvesse falado logo com toda a franqueza e tivesse me mandado para o diabo. Seria mais simples e muito mais digno. Até hoje homem nenhum teve a petulância de fazer-me a vigésima parte do que tens feito; envergonho-me de me haver iludido ao ponto de contar, já não digo com o teu amor, que tu só amas a ti próprio, mas ao menos com o teu reconhecimento, que era dever teu para comigo.
Saíste-me vulgar e mesquinho como os outros - paciência!
Ontem fui â tua casa; mas, ao subir as escadas ouvi uma voz de mulher, espiei pela fechadura, vi-te a discutir e a ralhar com uma sujeita; alguma cena de ciúmes! quis entrar e confundir a ambos, resolvi, porém, não ligar tanta importância a um fato que afinal não a merecia, e sal com a intenção de nunca mais te procurar.
"Ao chegar á casa, ardia em febre; à noite não pude me levantar da cama; veio o médico, aconselhou-me todo o repouso, e que eu evitasse contrariedades e que, mal me achasse em estado de sair, procurasse um arrabalde bem tranqüilo e salubre.
"Não sei qual é a minha moléstia, posso apenas afiançar que estou muito doente, nervosa a um ponto de fazer lástima, sem poder comer e sem poder dormir; a boca muito amarga, a caixa do peito muito dorida, e que a causa de tudo isso, - és tu.
"Não obstante perdôo-te, porque não és o culpado de te amar eu tanto. Só desejo que nunca te façam passar pelo que me tens feito sofrer.
"Adeus. Amanhã sigo para a Tijuca, e é natural que em breve esteja de viagem para a Europa. Se quiseres me ver antes disto procura-me e, 8e não queres, remete-me o teu retrato. Adeus. Assinara o nome dela.
- Sempre a mesma coisa!... pensou Teobaldo com um gesto de aborrecimento; mas foi interrompido pelo criado, que vinha fazer entrega de uma carta que deixara a senhora. - Uma carta!... Para mim!... perguntou o rapaz.
- Sim, para o Sr. Teobaldo.
Lembrou-se este então de que a outra, que acabava de ler, não lhe tinha sido remetida e abriu a nova com uma certa curiosidade.
Querido Teobaldo.
Peço-te que não me procure. Deixo esta casinha por interesses particulares e é natural que do lugar a que me destino siga logo para a Europa. Sou inconstante, perdoe, é uma questão de temperamento I Adeus. Seja feliz!
Teobaldo sorriu ao terminar a leitura.
- Coitada! disse consigo. - Foi infeliz! esqueceu-se de inutilizar a outra carta, sem o que talvez produzisse esta o efeito a que se destina. Definitivamente não nasci para sofrer pelas mulheres!...
E ganhando de novo a rua:
- Daqui nada mais tenho a recear! Desta estou livre!
Ao entrar na cidade encontrou logo o Aguiar.
- Amanhã, hein? disse-lhe este, não te esqueças!
Teobaldo já se não lembrava de que.
- Oh! homem, da festa de meu tio! Amanhã é o dia dos anos de Branca.
- Ah! sim! É bem possível que eu vá.
E seguiram juntos para tomar alguma coisa.
XV
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.