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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

O desarmado soltou um formidável grito de desespero e engalfinhou-se com o outro Ângelo, rolando ambos ao chão, por entre os cadáveres ensangüentados, enquanto um sino ao longe principiava a badalar, chamando para a missa, e a aurora acordava a natureza, cantando um hino de gorjeios e murmúrios de floresta.

O infeliz vigário acordou afinal, na vida real, banhado de suor, sufocado e aflito, a debater-se no seu leito com a própria sombra, que o estrangulava.

CAPÍTULO XII

A dúvida

A tarde sucumbia lentamente, enchendo a natureza com a sua triste alma lamentosa. As cigarras estridulavam nas sonolentos frondes dos arvoredos, como um contínuo gemido do crepúsculo que agonizava. O sol, cansado do seu esplendor, fugia ao longe, cambaleando por uma escadaria de púrpura real. Os lavradores recolhiam-se à casa, com a ferramenta ao ombro, e crianças brincavam no eirado ouvindo às Trindades.

Entretanto, na modesta sala de jantar do cura de Monteli, a velha Salomé, com o queixo apoiado à mão, o olhar perdido ao acaso, meneava a cabeça defronte do Dr. Cobalt, e parecia deveras desconsolada. O médico tomava notas na sua carteira.

— Ele não se queixa de nada?... perguntou depois de uma pausa, a estorcer nos dedos o lábio inferior.

— Não, senhor doutor, não se queixa de nada!... E é isso o que eu estranho!...

— Não tem dores de cabeça?... Vertigens, achaques nervosos?... insistiu aquele.

— Se tem, não sei... respondeu a criada, porque ele não se queixa nunca...É outra que eu estranho! ...

— Come com apetite?...

— Tão pouco como dantes...

— Está mais expansivo?... Conversa?...

— Está na mesma... E isso também não deixa de causar-me certa estranheza!

— Dorme bem?...

— Ah! Quanto a isso, acho que até dorme demais!... Ultimamente, mal toca às Trindades, já o senhor vigário está procurando a cama!... Só nisto mudou durante a ausência do Sr. doutor... Dantes levava às vezes acordado até que horas da madrugada, e agora, é anoitecer, e já ninguém o detém de pé! Deu para isso desde aquela célebre noite em que o vieram buscar para ir à Avenida de Blancs-Manteaux. O médico tomou novas notas e perguntou depois, sem desfilar o olhar de onde o tinha pregado:

— Ele anda muito durante o dia?... Fatiga-se?...

— Não sai agora de casa senão para os seus deveres ...

— Não passeia?...

— Agora, nunca. Dantes ainda o fazia algumas vezes, e quase sempre demorava-se por aí, margeando o rio ou percorrendo a serra; mas depois da ida ao castelo d'Aurbiny, nunca mais fez desses passeios. Mal acaba o que tem de aviar aí por fora, volta logo para casa e, chegando a noite, deita-se, haja o que houver! ...

— E dorme logo?...

— É deitar-se e pegar logo no sono.

— E o sono é sossegado?... é profundo?...

— Pode vir a casa abaixo, que ele não dá por isso! Só desperta na manhã seguinte, ao raiar do dia. E nunca vi procurar a cama com tamanha sofreguidão! ...

Até parece moléstia, Deus me perdoe!

— Singular!... muito singular!... resmungou o doutor, sem largar o lábio.

— Nem sei o que me parece aquele modo de dormir!... tornou a criada, com um suspiro em que denunciava toda a sua tristeza pelo estado do amo. Tenho meus receios de que haja praga! Virgem Santíssima! Há no mundo tanta boca danada, e o senhor vigário tem sido perseguido pelos padres que vieram de Paris!...

Cobalto, interrompeu-a.

— Ele não lhe tem contado nada a seu respeito, minha boa amiga?...

perguntou.

— Qual nunca esteve comigo tão fechado como agora...

(continua...)

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