Por Franklin Távora (1878)
- Olha bem, não te vais espetar em alguma tragédia. O cabra é malvado e traiçoeiro.
Ele é cabra, e eu sou negro, mas porém se ele não andar muito ligeiro, eu passo-lhe o pé adiante. Ele não sabe com que negro está pegado. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda bem Germano não tinha entrado na mata, quando novo vulto se mostrava na estrada, do lado oposto.
- Não te recolhas já, Marcelina, disse o vulto de longe.
Quem falava era o padre Antonio.
- É vosmecê, seu padre? perguntou a cabocla admirada.
- Que será isso? disse Lourenço aparecendo. Seu padre por aqui!
- Vocês admiram-se, hein? E não deixam de ter sua razão.
Os três tornaram para dentro da casa. Marcelina, que foi a ultima a fazê-lo, encostou a porta de baixo, pois a sala era muito pequena, e daí mesmo, com os olhos na estrada e nos outros dois interlocutores, alternativamente, fez-se toda ouvidos. O padre então sentou-se em um tripeça, ao pé da mesinha da sala, enquanto Lourenço, de pé, com as mãos sobre o espeque onde descansava a porta da janelinha, quando estava aberta, esperava impaciente que o sacerdote quebrasse os selos do mistério que o levava ali.
- Venho pedir-te um serviço que, na ausência de teu pai, só tu me poderás prestar, Lourenço.
- Vosmecê não pede, manda, seu padre, respondeu o rapaz.
- Como tenho de fazer uma viagem esta madrugada para fora de Goiana, quero que vás agora mesmo ajudar o José a arrumar as minhas malas. Olha. Põe tudo o que é meu dentro delas. Deixa só o que absolutamente não puder ir.
- Se vosmecê quer, vou eu, disse Marcelina. Lourenço não sabe fazer bem estas coisas.
- Sabe, sabe, respondeu o padre. Demais eu tenho que te falar. Vai, Lourenço.
Quando se acharam sós o padre Antonio e Marcelina, disse aquele a esta:
- Marcelina, venho fazer-te uma confissão tão verdadeira e sincera como se a fizesse a um padre do Senhor.
- Uma confissão! Quem sou eu para merecer tanta honra e confiança?
- O que tu és, bem o sei eu. Tu és merecedora de honras e distinções muito mais altas do que esta, porque em ti a virtude fez sua morada, e a honestidade dá seus saudáveis frutos. Todos os elogios da terra ficariam ainda aquém do teu merecimento. O lar domestico ainda não encontrou nem encontrará jamais quem o represente melhor do que tu o representas.
- Seu padre está exagerando.
- Não estou, não. Há quatro anos que moro no Cajueiro. estou por isso habilitado a conhecer as tuas qualidades, a saber os teus sacrifícios, a admirar a rara beleza de tua alma. Mas venhamos já ao que importa. De duas partes se compõe a minha confissão. Começarei pela segunda. Estou-me vendo em uma colisão cruel. Avalia por ti mesma. Não viste entrar hoje em minha casa o sargento-mór? - Vi, sim senhor.
Veio pedir-me, antes impor-me, que eu partisse hoje até amanhã para Goianinha, a fim de, por meio de praticas publicas, chamar ao partido dos nobres o povo que se declarou e tomou armas pelos mascates. Se o pedido fosse exclusivamente dele, eu acharia logo meios de escursar-me, posto que são muitos os obséquios e as atenções que me prendem ao sargento-mór. Mas infelizmente não é assim; e o sargento-mór foi portador de uma carta em que o bispo suplica que eu vá pacificar os ânimos daquele povo, e de lá siga até os limites da Paraíba com o mesmo fim. Alguém no meu caso recusaria este favor ao seu prelado e ao seu amigo? Ninguém. Pois eu acabo de recusar, quando já estava determinado a praticá-lo. Sabes porque recuei? Escuta lá, Marcelina. Não viste hoje de tarde sair de lá de casa um frade carmelita?-
- Não vi, mas Lourenço me disse.
Era o prior do convento do Carmo. Veio de propósito – vê lá tu como as coisas se ajuntam – com uma carta, antes ordem da recoleta do Recife, exigindo que eu sem perda de tempo me dirija a Paraíba, a fim de levantar os ânimos do capitão-mór João da Maia, que começam a resfriar. Esta providencia foi resolvida pelo padre João da Costa, a quem devo grandes benefícios, e pelos Drs. Ferreira Castro e Mendes de Aragão, conselheiros do governo dos mascates. Não contentes com incumbir-me deste gravíssimo mister, exigem que eu me ponha a caminho de hoje para amanhã. Neste sentido recebi, à entrada da noite, nova carta de frei José de Monte Carmelo, que Antonio Coelho me mandou trazer por Pedro de Lima. entre as três e as quatro horas da madrugada hão de estar por aqui os meus companheiros de jornada à Paraíba. Oh, que colisão cruel, Marcelina?
- E seu padre vai fazer este serviço aos mascates? Perguntou a cabocla.
- Eu deixo o Cajueiro, mas, aqui em particular, que ninguém nos ouça, devo dizer-te: não vou nem para Paraíba, nem para Goianinha. Vou para... Nem sei para onde vou eu. Vou fugindo de mascates e de nobres.
- Mas, meu Deus, como há de ser isso? Pois vosmecê nos deixa assim?
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.