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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Era uma vitória, depois de longos anos de constância e luta. Era a flor mimosa da mais ardente esperança de Jacinta de S. José que desabrochava enfim sobre o jazigo da donzela inspirada, triunfo de além-túmulo, como o triunfo dos poetas.

Trinta e nove anos tinham corrido depois que Jacinta de S. José e Francisca de Jesus Maria se haviam retirado para o asilo da chácara da Bica, e vinte depois que o mosteiro de Nossa Senhora do Desterro abrigara as primeiras religiosas dirigidas por Jacinta.

Eis aqui a história que me propus a contar-vos. Agora levantemo-nos e vamos de mais perto ver o convento que temos diante de nós.

Uma ladeira calçada de pedra nos conduz ao mosteiro. Deixamos à mão direita uma casa de sobrado, que é destinada ao capelão das freiras, e subindo por uma escada de pedra, entramos em um pátio cercado de grades de ferro e que se estende aos pés da igreja e do convento.

O mosteiro é pequeno, e no exterior não se recomenda por condições arquitetônicas; antes se ressente da necessidade que houve de se aproveitar a igreja primitiva de Nossa Senhora do Desterro.

A face principal do convento, que, aliás, consta de dois únicos pavimentos, apresenta dez janelas, olhando para a barra, e defendidas por grossas e rudes grades de ferro. Na extremidade do lado esquerdo liga-se à torre, e esta à igreja.

A igreja tem uma porta lateral à esquerda. Do mesmo lado, e um pouco para trás, fica a sacristia, a que se prende um muro.

Junto da torre está a portaria, e sobre esta uma única janela com a sua grade de ferro.

O edifício é solidamente construído, e na altura em que se mostra, dominando o mar e a cidade, parece, tranqüilo e impávido, desprezar a violência das tempestades que às vezes revolta a face de um, e enfurece o coração da outra.

Por detrás do mosteiro, alarga-se a cerca ou quintal, todo murado, e tendo em seu seio tetos de abrigo para as religiosas que ali vão em horas de recreio ou nos três suaves dias que a regra anualmente lhes impõe para higiênico descanso e passeio.

Penetremos na igreja.

Ela é pequena, triste e pobre.

Tem três altares. O altar-mor é consagrado à Sacra Família. O do lado do Evangelho à Nossa Senhora do Carmo. O do lado da Epístola à Santa Teresa.

No fundo da igreja, vêem-se dois coros, um inferior e outro superior, defendidos por grades e por véu denso e preto.

No coro superior, o curioso descobre, através do véu, sombras imóveis à hora da missa. São as freiras, que logo depois se fazem sentir entoando o tantum ergo no momento solene de levantar-se a Deus.

O coro que fica por baixo desse é reservado para os dois ofícios extremos da freira. Para a profissão e para o enterro, para o véu e para a mortalha; para a perpétua despedida do mundo e para a eterna despedida do mosteiro. É ali que a freira recebe a solene consagração dos votos que um dia antes fizera no capítulo, e que mais tarde o seu cadáver terá de receber as orações dos finados.

Além da porta lateral que dá entrada aos fiéis para a igreja, há outra do mesmo lado, na capela-mor, comunicando com a sacristia, que é de uma extrema simplicidade, e apenas se faz notar por um quartinho escuro que tem no fundo e no ângulo mais próximo do arcaz.

Esse quartinho é um dos dois locutórios das freiras, que vêm às vezes falar a seus parentes, fazendo ouvir a sua voz ou recebendo a voz do visitante através de um ralo coberto com um véu.

Como disse, o convento consta de dois únicos pavimentos, para os quais se entra pela portaria.

A portaria tem dois altares, um que pertence a Nossa Senhora do Carmo e outro a S. Elias. A mãe de Deus e o profeta do monte Carmelo fazem a guarda do mosteiro.

No pavimento inferior, vê-se o claustro com arcaria, que forma no seu centro um pátio, onde as freiras cultivam algumas flores com que ornam os altares do interior. Além do claustro, acham-se aí as catacumbas e a cozinha. Uma porta comunica o pátio com a cerca.

Neste pavimento, além de diversos altares, está a capela do capítulo.

No pavimento superior, há um segundo locutório, que fica exatamente por cima do que existe no fundo da sacristia. Há dez altares, e destes, sete dos passos do Senhor; e há as celas das freiras e das noviças separadas em duas filas por um longo corredor, que dantes se chamava o corredor escuro, e que ainda hoje é assim designado, embora as últimas obras executadas no mosteiro lhe tenham dado luz bastante para fazê-lo perder aquela triste denominação.

Cada cela tem a sua janela abrindo para o pátio, ou para receber o ar e a luz. Três rudes tábuas, e sobre elas um enxergão e uma esteira, um duro travesseiro e uma simples cobertura, formam completamente o leito onde descansa a freira; e esse leito e um banquinho muito baixo, onde ela escreve ou coloca objetos de trabalho, resumem toda a mobília e todos os ornatos da cela.

(continua...)

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