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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Jorge vinha radiante de prazer, e com indizivel satisfação entregou a Cândida uma carta de seu pai e a Juliana outra de sua mãi, em que ambos manifestavão a sua approvação ao casamento do filho, e promettião estar na corte no fim de dez dias.

O resto da tarde e o principio da noite forão de suave embriaguez e de encanto para os dous noivos.

Juliana embevecida não podia arrancar os olhos do rosto de Jorge ; nada mais via nem sentia. Jorge nunca se mostrara mais carinhoso nem mais terno.

Ás dez horas da noite levantou-se para sahir, e aproveitando um momento em que Cândida, por calculada casualidade, se dirigira a janella, aproximou-se do piano, beijou tres vezes com apaixonado fervor o ramalhete de violetas, e logo depois retirou-se.

Juliana deixou-se cahir quasi desmaiada em uma cadeira, soltando um triste gemido.

XIV.

Era meia-noite.

Juliana estava só e velava anciosa em uma sala contígua á do seu toucador e afastada daquella onde no interior hora, dormia tranquillamente sua mãi.

A sala em que se achava a donzella, tinha uma porta que se abria para o salão principal, e que estava trancada; outra pela qual se passava para o terraço, donde se descia ao jardim por uma bella escada de pedra: essa porta estava também fechada; tão de leve porém, que seria facil abril-a sem ruido; uma janella finalmente olhando para o jardim, e que se deixara apenas cerrada e com a vidraça erguida.

Uma vela ardia solitária na sala do toucador e derramava fraca e escassa luz pela extensão daquella em que Juliana se conservava mysteriosamente velando.

Sentada junto de uma pequena mesa, sobre a qual descançava um dos braços nus, com seus cabellos soltos em multidão de bastos aneis que cahião sobre as suas espaduas magnificas, trajando um vestido branco que fazia lembrar a mortalha de uma virgem Juliana esquecida de si mesma no seio daquella meia sombra de uma sala mal esclarecida ; muda e só, pensativa e agitada, e apenas exhalando de momento em momento dolorosos e profundos suspiros, podia comparar-se ao cysne que, abandonado no lago, adivinha a aguia ainda distante, solta o seu grito pungente, mas não foge, e, como resignado, espera a hora do terrivel sacrificio.

Com os olhos fitos em uma pêndula que distinguia a alguns passos diante de si, não podendo apreciar o movimento regular e progressivo dos ponteiros annunciadores da marcha incessante do tempo, ella escutava aquelle monotono tic-tac, que parecia responder a cada palpitar do seu coração, como se o pêndulo vibrador pudesse estar lendo em sua alma, e marcando de momento a momento uma accusação da sua consciência.

E de cada vez que o sino da egreja vizinha, perturbando o silenco da noite, dava signal de um quarto de hora já passado, um estremecimento nervoso agitava o corpo delicado da donzella, e uma gotta de suor cahialhe pela fronte sobre o collo.

Pela janella que ficar entreaberta, entravão as auras da noite, que ião cubicosas brincar com os aneis de madeixa da formosa moça, e perfumal-os com os aromas roubados ás flores, e como thurificadores incensando uma victima prestes a sacrificar-se.

E o sino se fez ouvir ao perto quatro vezes seguidamente e logo depois, com o dobre mais grave, ainda uma vez.

Juliana estremeceu com mais violência do que até então, e balbuciou convulsa:

— Uma hora!...

XV.

Juliana esperava Jorge de Almeida.

Um successo imprevisto e não calculado tinha favorecido os projectos audaciosos do seductor, e determinando a concessão involuntária dessa entrevista nocturna, em que a virtude da apaixonada donzella ia ficar exposta aos maiores perigos.

Fábio havia, sem o pensar, arrojado Juliana naquelle abysmo, atirando o ramalhete de violetas sobre o piano.

A donzella vendo chegar o seu noivo, esquecera o fatal ramalhete, e somente delle se lembrara quando Jorge de Almeida o fez apparecer a seus olhos, beijando-o tres vezes.

O gemido que então escapou do seio de Juliana, foi o grito supremo de sua innocencia terrivelmente ameaçada.

Juliana não tinha concedido a entrevista já tantas vezes pedida pelo seu amante; reconhecia porém que este devia contar com ella e aproveitar-se do afortunado signal.

Se por instantes ella desejava que Jorge de Almeida perdesse a lembraça de uma concessão para elle tão lisonjeira, logo depois sua vaidade despertada tremia, receiosa de um esquecimento que chegaria a parecer um desprezo.

A virtude offerecia a Juliana um unico recurso, e determinava-lhe não descer ao jardim á hora aprazada, faltar absolutamente á entrevista, que realmente não fora concedida, e no dia seguinte explicar ao seu noivo com franqueza e verdade a causa dessa falta, e o motivo daquelle qui-proquó, que era tão offensivo da sua honestidade e da sua pureza.

(continua...)

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