Por José de Alencar (1872)
Até conhecer Berta, o único vestígio humano que havia nessa bestialidade, era o ódio. Aborrecia a toda criatura racional, talvez por uma confusa percepção de sua deformidade e estupidez.
Depois que o desvelo da menina lhe inspirara a fúria amorosa, transformara-se em profundo rancor a profunda repugnância que ele sentia por todos; e tal fora o choque produzido por estas paixões, que acendeu uma centelha nas trevas daquele espírito embrutecido.
Desde então houve nessa animalidade um impulso que não era idiota; e foi o ódio. Estúpido em tudo, parvo até nos ímpetos da cega dedicação que votava a Berta, mostrava para o mal uma astúcia e perspicácia admirável. Incapaz de conceber uma idéia, maquinava pacientemente uma vingança terrível. À sutileza do réptil venenoso, reunia a sagacidade do guará.
Os insetos figuravam as pessoas que mais odiava, e a quem ruminava exterminar, espreitando a ocasião de levar a cabo a feroz maquinação. Enquanto não chegava o momento, divertia-se com aquele sinistro folguedo.
Surpreendido quando chegava ao sítio habitual, e obrigado a esconder-se, ouvira a trama do Barroso, que o alegrou a princípio, porém agora o contrariava pelo receio de perder a sua maldade.
Sacando do socavão um pedaço de arco de barril que afiara a ponto de torna-lo um punhal, ocultou-o no bolso do jaleco; depois do que desapareceu um instante ao lado do brejal, e voltou com um sapo que atirou junto ao buraco da casa de cupim, debruçando-se em cima dela, à espreita.
Imediatamente ao grasnido do anfíbio, apareceu no buraco a enorme cabeça de uma cascavel, que fitou no sapo a pupila cintilante.
Desde muito tempo cercava aquela serpente, que entrava no seu plano. Com uma forquilha, da posição em que estava, facilmente conseguiu prender a cabeça da vípera e agarrando-a pelo colo sem importar-lhe a sanha com que ela silvava, estorcendo a cauda e açoitando-lhe o rosto, deitou a correr por dentro do canavial.
Chegando que foi junto à casa, trepou a uma jabuticabeira para alcançar o peitoril da janela, cuja vidraça estava erguida, mostrando entre as cortinas de cassa uma linda cama de mogno coberta por colcha de damasco azul, um toucador, guarda-vestidos e outros móveis da recâmara de uma senhora.
Era a alcova de Linda. A mão perversa do idiota arremessou a cobra, que foi cair justamente sobre a cama e depois de aplacada a fúria, encolheu-se entre as rendas dos travesseiros, com a pupila em sangue e o bote armado.
Acabava o idiota de preparar assim o primeiro ato da obra de extermínio, que ele ruminava em sua feroz estultícia, quando o fez estremecer a voz de Berta que se encaminhava para a alcova.
Luís Galvão havia chegado. Ao avista-lo as meninas tinham descido do mirante a correr para chamar D. Ermelinda e irem ao encontro do fazendeiro. Também acudiram para tomar a benção ao senhor os escravos empregados no serviço doméstico, e alguns dos que não trabalhavam na roça, mas andavam por perto nas tulhas e fábricas.
Entre estes distinguia-se um inválido curvado como um arco de pipa, com a cabeça lisa como um quengo, e o queixo fino como uma faca desdentada; pelo que chamavam de pai Quicé. Era ele um dos favoritos de Berta, que todos os domingos lhe dava um vintém para fumo.
Depois de salvar ao senhor, pai Quicé que ainda não tinha visto Berta naquele dia, fez-lhe muitas festas como sempre, e começou a costumada e interminável lengalenga com que a menina muito se divertia.
Berta era curiosa, e pois gostava de saber de tudo quanto se fazia ou falava por aqueles arredores. O negro velho que não tinha outra coisa para dar à sua gentil protetora, trazia-lhe quanto mexerico e história ouvia pelas vendas, onde graças à liberdade de traste inútil, passava a maior parte do tempo.
- Nhá moça, sabe? Aquele homem muito mau, que mata gente, o Bugre que foi aqui da fazenda?...
- Que tem? perguntou Berta, cuja atenção foi excitada.
- Vão prender ele.
- Quem te disse?
Contou o negro velho o que ouvira ao Gonçalo junto à venda do Chico Tinguá, e o mais que dos ditos de outros e de sua própria astúcia colhera posteriormente. Era naquela tarde que o Pinta ficara de guiar Filipe ao esconderijo do Bugre.
- E você sabe onde ele está? perguntou a menina com vivacidade.
- Sabe, sabe; Quicé sabe.
- Onde é?
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.