Por José de Alencar (1872)
- E não interromper; porque já estamos perto de casa. Quem sabe se não é também diplomacia para ganhar tempo?
- Estou mudo como um reposteiro.
- Pois ouça. O primeiro desejo era, note que eu não digo é; era que o “Galgo” fosse meu.
- Não vejo a impossibilidade.
- Eu lhe mostro. Se papai quisesse comprá-lo, o senhor recusaria vendê-lo.
- Certamente.
- Era o único meio.
- Perdão; há outro.
- Não há mais nenhum. O senhor não podia nem pensar em oferecê-lo a pessoas com quem não tinha relações íntimas; e menos agora, depois desta confissão. Portanto é impossível.
- Assim, decerto.
- Passemos ao segundo.
- É verdade, ainda restam dois desejos.
- O meu segundo desejo... Promete não desconfiar? disse Guida voltando-se para ele com gentileza.
Ricardo teve uma suspeita de que a filha do banqueiro o estava debicando, como costumam as moças bonitas e prendadas, para mostrarem espírito e darem expansão à natural petulância de um coração de dezoito anos. O primeiro impulso foi retrair-se; mas não se deixou levar dele; seu caráter sério não o inibia de aceitar com a moça esse desafio de garrulice.
A borboleta queria voejar, ostentando suas roupagens magníficas e farfalhando as asas sussurrantes. Não havia ali flor, que libasse; pois seria ele o pretexto desse inocente devaneio, do qual também de sua parte contava participar.
- Desconfiar?... Fique descansada; não quero passar por provinciano duas vezes no mesmo dia.
- Lembra-se da primeira vez em que nos encontramos? perguntou Guida.
E fitou no moço um olhar, que esperava a resposta da interrogação.
- Foi aqui mesmo na Tijuca! disse Ricardo.
Assomou à face um leve rubor, que o olhar de Guida evitou, mal o percebeu.
- O senhor estava muito embebido a olhar a florzinha amarela...
- Sim; a da Pedra Bonita?
- Essa mesma.
- Admirava. É um mimo essa flor.
- É uma jóia, é; mas deixemos a flor por enquanto. Eu também tenho paixão por ela e a admiro. Mas o senhor admirava e fazia outra coisa.
- Não me recordo.
- Eis um recurso de que não precisa.
- Tem razão. E por que hei de negar? Beijava-a: está satisfeita? Guida fez com a fronte um aceno afirmativo.
- Cuidei que essa poesia do sentimento, que faz conversar com uma estrela, beijar uma flor, adorar uma lembrança, já não se encontrava hoje em dia, a não ser nos romances. Se alguma vez se misturava com o prosaísmo desta nossa vida fluminense, era a moda de comédia de sala: para divertir as moças da moda, que chegaram aos dez anos e já não podem mais suportar as bonecas. Ora, desta última suposição, está claro que não se trata. A causa portanto é seria.
- Muito séria, acudiu Ricardo.
- Confessa?
- Há nada mais sério e real do que a fragilidade humana? Eu lhe conto a história dos “Sonhos d’ouro”. É assim que chamo a florzinha amarela...
- O nome é bonito!
- Se tem outro, não sei, dei-lhe este. É bonito e lembra uma coisa muito agradável. “Sonhos d’ouro”!... A senhora não pode ter esse prazer; Deus, dando aos ricos a opulência, negou-lhes a ardente esperança de a obter, e reservou-a como uma compensação para nós, os pobres. É somente para nós que essa fada incomparável levanta os suntuosos castelos, os jardins encantados, os paraísos na terra. Quando a senhora me viu, eu entrava no mais belo de meus castelos, à vista do qual o rico palácio que seu pai tem nas Laranjeiras é um albergue; subia as escadas de pórfiro marchetadas de ouro. Abriam-se de par em par as portas de rubi da sala da saudade; e minha mãe aparecia-me sobre um trono de safiras. Atirei-me a ela, que recebeu-me em seus braços, beijei-lhe os olhos, coalhados de lágrimas, e... A senhora acordou-me.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.