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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Por toda esta vasta região, na qual um mês antes fôra difícil encontrar uma gota d’água a não ser no fundo de alguma cacimba, rolam as torrentes impetuosas de rios caudais formados em uma noite. 

A terra combusta, onde não se descobria nem mesmo uma raiz sêca de capim, vestia-se de bastas messes de mimoso, que a viração da manhã anediava como a crina de um corcel. E eram já tão altas as relvas do pasto, que inclinando-se descobriam as reses alí ocultas. 

A vegetação incubada por muito tempo desenvolvia-se com tamanho arrôjo, que mais parecia uma explosão; sentiam-se os ímpetos da terra a abrolhar essa prodigiosa variedade de plantas que se disputavam o solo, e acumulavam-se umas sôbre outras. 

Eram como cascatas de verdura a despenharem-se pelos vargedos, confundidas num turbilhão de fôlhas e flores, e sossobrando não só a terra, como as águas que a inundavam. 

A superfície de cada uma dessas grandes lagoas efêmeras, produzidas pelo inverno, tornara-se um solo fecundo, onde mil plantas palustres erguiam seus pâmpanos formando uma floresta aquática. 

Os cavalos em bandos e os magotes de éguas, soltos pela várzea, nitriam alegremente ao avistar a comitiva, e a seguiam por algum tempo rifando de prazer, enquanto os poldrinhos curveteavam travessos à cola das mães. 

Ao tropel dos animais surdiam das touceiras de panasco os novilhos e garrotes mansos, que deitavam a correr pelo campo; mas o gado mocambeiro esgueirava-se pelas moitas, e escondia-se manhoso à vista dos vaqueiros. 

Não era somente na terra, mas também no espaço que a vida sopitada durante a maior parte do ano, jorrava agora com uma energia admirável. 

Havia festas nos ares: a festa suntuosa da natureza. No meio da orquestra concertada pelos cantos dos sabiás, das graúnas e das patativas, retiniam os clamores das maracanãs, os estrídulos das arapongas, e os gritos dos tiés e das araras. 

Agora era um bando de jandaias que atravessava o espaço grasnando e ralhando, em demanda de outra carnaúba onde pousar. Passava depois a trinar uma multidãp de galos de campina, à cata do milhal; ou um enxame de chechéus que pousava em um jatobá sêco, e cobrindo-lhe os galhos mortos e nus de dôlhas, formava uma copa artificial com a sua luzida plumagem negra marchetada de ouro e púrpura. 

As jaçanãs esvoaçavam por cima das lagoas e pousavam entre os juncos. Os currupiões brincavam nos galhos da cajazeira; e a industriosa colônia dos sofrês construia os seus ninhos em forma de bolsas penduradas pelos ramos da árvore hospitaleira. 

Nada, porém, mais gracioso e alegre do que os periquitos verdes, de bico branco, e tamanhos de um beijaflor, que adejam em bandos de cem e mais, chilreando, como uns garotinhos, que são, dos ares. 

Na côr parecem esmeraldas a voar; e no mimo e gentileza figuram os silfros dêsses campos, que tomassem aquela forma delicada para esconderem-se ao seio das magnólias silvestres. 

A essa hora em que o capitão-mór com sua família seguia pelos tabuleiros em busca das margens do rio Quixeramobim, outra cavalgada, que partira de ponto diverso, caminhava na mesma direção, e no passo em que ia, com pouco devia cortar o rumo da primeira. 

Compunha-se esta segunda do capitão Marcos Fragoso e seus hóspedes e parentes. Também êles vinham encourados; mas a vara de ferrão, a tinham dado aos pagens para carregá-la, como outrora com as lanças usavam os cavalheiros de tratamento. 

O dono do Bargado trazia consigouma grande porção de vaqueiros sob as ordens de José Bernardo, seu vaqueiro principal. Essa récua de sertanejos com os pagens formavam-lhe uma comitiva respeitável, que sem nenhuma aparência de escolta, era mais numerosa do que a do capitão-mór. 

Vinham logo após a comitiva uns comboieiros, tocando animais de carga. As canastras suspensas às albardas, que ainda se usavam então e vez das cangalhas, continham os aprestos necessários para o lauto almôço, depois da montearia. joão Correia e Daniel Ferro seguiam adiante divertindo-se com os macaquinhos vermelhos, que saltavam pelos ramos a fazer-lhes caretas, ou que suspendiam-se pela cauda soltando uma surriada de mofa. 

Ourém que ia ao lado de Fragoso, quebrou afinal o silêncio com estas palavras, que pareciam completar reflexões anteriores: 

— E para quando fica a nossa ida à Oiticica, primo Fragoso? Aquela que nos anunciou na mesma noite de nossa chegada?  Não me parece já tão firme em sua resolução, e não sei se lhe diga, que acho-lhe pouco jeito para casado. 

— Também a mim parecia isso impossível, respondeu Fragoso a rir. Mas depois que vi D. 

Flor, o impossível é viver longe dela; e desde que não há outro meio…

— Mas então que espera? 

(continua...)

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