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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Ignora que eu tenho em minhas mãos os meios de vingar-me; e que existe no seu coração um amor que eu posso destruir?... – tinha dito Salustiano.

E Mariana tremera e balbuciara uma frase que ele não pôde ouvir.

O terrível moço continuara:

– Eu vou ter daqui a pouco uma hora de prática com o sr. Henrique.

Mariana estava desfigurada pelo terror.

– No fim dessa hora estarei vingado.

Anacleto não teve coragem para ouvir mais nada; luziu-lhe no ânimo a idéia de cair sobre aquele homem com suas mãos trêmulas, e afogá-lo ali mesmo... mas lembrou-se de que ele podia gritar... falar muito alto... e o pobre pai não sabia o que é que toda a sociedade reunida em sua casa chegaria a saber.

Com o coração despedaçado correu para o jardim, atirou-se ao banco de relva, e, cobrindo o rosto com as mãos, começou a chorar e soluçar desesperadamente.

– Oh! meu Deus! meu Deus!... exclamava ele.

E depois pensava consigo mesmo: será possível que aquela gente toda tenha os olhos fechados, que não observe e reprove o procedimento de minha filha?... que não leia na horrível palidez de seu semblante a prova irrecusável de um crime?...

que não esteja olhando para mim com piedade de meus cabelos brancos?

– Oh! meu Deus!... meu Deus!... exclamava.

E depois, continuava a pensar consigo mesmo. Que crime terá praticado minha pobre filha?... porque a submissão, com que ela se curva àquele bárbaro, não é amor... não... eu conheço minha filha, ela detesta esse indigno mancebo; mas ele falou em vingar-se... disse que tinha em suas mãos os meios da vingança: oh! pois então a minha pobre Mariana é criminosa?... a filha do meu coração há de ser desgraçada?... ousaria ela manchar as cãs de seu pai?... a minha pobre, a minha querida filha... o meu anjo!...

– Oh! meu Deus!... meu Deus! exclamava.

E depois, continuava ainda a pensar consigo mesmo: ser pai é uma coisa muito triste; ter filhos é abrir a alma aos pesares!... oh! estes filhos, a quem damos a vida, nos matam!... estes filhos, a quem em pequeninos sustentamos pelas mãozinhas para fazê-los andar, e carregamos aos nossos ombros, vêm depois com as suas loucuras empurrar-nos para o túmulo!... oh! neste mundo não há missão mais difícil, mais cheia de lágrimas, do que a missão de pai!... e então eu... tão velho! com a cabeça coroada pela neve dos anos, trêmulo, sem forças, com os pés na cova, nem ao menos morrer consolado! o que eu pedia ao céu era fazer minha filha venturosa, e depois morrer... E há de agora a vergonha vir fechar-me os olhos?!... e morrendo, deixarei minha pobre filha do coração, só, desolada, desprezada pelos homens, e sem amparo no mundo!... isto é horrível... é capaz de matar de repente!

– Oh! meu Deus!... meu Deus!... exclamou chorando ainda com mais força o infeliz velho.

Cândido tinha estado muito tempo em pé diante de Anacleto, não querendo, enfim, perturbar aquela dor imensa em que o via engolfado; ia retirar-se, quando ao ruído de suas pisadas na terra o velho ergueu a cabeça.

– Quem é?... perguntou enxugando apressadamente as lágrimas.

– Sou eu, sr. Anacleto, respondeu Cândido. Minha curiosidade trouxe-me neste momento ao jardim; retirava-me porém já para não incomodá-lo.

– Incomodar-me!... então eu...

O mancebo ficou em silêncio.

– Chorava?... exclamou Anacleto soluçando de novo.

– É verdade.

Estiveram ambos por algum tempo sem dizer-se palavra. O velho chorando e Cândido tristemente observando-o.

– Sim, disse finalmente aquele: tenho chorado... muito, minha cabeça arde...

uma dor despedaçadora parece querer rebentar as fracas paredes deste velho crânio... o que eu sofro é isso... é uma dor... eu estou doente.

– Oh? então por que não se apressa a medicar-se? eu vou chamar a senhora sua filha... sobretudo este ar da noite, o sereno pode fazer-lhe mal.

– Não... não quero... eu exijo que não chame ninguém... nem mesmo minha filha. Este ar da noite me faz bem... eu estou melhor, muito melhor; isto vai passar de todo. Basta que eu descanse... vá dançar, preciso ficar só.

Cândido ia retirar-se.

– Escute, tornou o velho: promete-me não dizer a pessoa alguma que eu estava incomodado?... promete-me?... veja que eu o exijo.

– Pois bem, senhor, nada direi.

– Sobretudo, meu filho, não diga a pessoa alguma que me viu chorando aqui.

Cândido retirou-se.

O velho, sacudindo tristemente a cabeça, disse:

– Moço, se não compreendeste a minha dor, hás de compreendê-la um dia; – és filho; serás pai.

CAPÍTULO XX

UMA MULHER QUE MENTE

QUANDO, de volta do jardim, Cândido entrou na sala, Mariana e Henrique conversavam com fogo, e defronte deles Salustiano estava em pé de braços cruzados, como quem espera por alguma coisa.

(continua...)

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