Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Eu sei que ele já freqüenta muito a casa de meu amo, disse Félix.

— Pois bem: é esse o único que me incomoda; mas ao menos ele não pode deixar de verse muito atrapalhado.

— Por quê?...

— Porque a sua comadre mudou-se para Niterói, e consta-me que não deixa a companhia de D. Honorina... isto há de dar ainda muito que falar.

— Rosa!... que belos dias temos de passar... é preciso entrelaçarmo-nos de amizade com D. Honorina; domingo, agrados sobre agrados! — Então domingo...

— Estamos convidadas a passar o dia com ela...

— Minha senhora... se eu pudesse ser apresentado...

— Oh! será uma contrariedade para Manuelzinho; mas se quiser pode ir em nossa companhia, e devo crer que será bem recebido.

— Disso tenho eu a certeza.

— Pois muito bem; está convidado.

— Oh! presente do céu!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

No entanto, que alguns dos apaixonados de Honorina preparavam-se para lutar, que Lucrécia se dispunha para vingar-se, ou pelo menos opor-se à ventura de Otávio, Tomásia e Rosa se tratavam para observar e murmurar; o que estaria projetando ou fazendo esse homem, de que nenhum deles sabe, esse incógnito, cuja existência só tem sido sentida por Honorina, Raquel e Lúcia?...

Duas semanas são passadas desde o seu último aparecimento: não há notícia nenhuma dele; ninguém o conhece... e Honorina, que em silêncio pensa nele, não se anima, nem se animará nunca a perguntar pelo moço loiro.

E quem é esse homem das sombras e do mistério?...

E o que quer dizer esse contínuo pensar do espírito de Honorina, que pende sempre docemente em suas reflexões das vigílias, e em seus sonhos das noites para esse jovem desconhecido?... o que quer dizer?...

Extravagante, estouvado por força, esse personagem misterioso, que ainda se não sabe, ao certo, que cara tem, que muda de semblante, de ofício, de vestidos, e de cabelos a cada hora, como pôde tão vivamente tocar a alma (e quem sabe se também já o coração) de uma inocente moça?...

Oh!... é porque a mulher ama, sobretudo, o que lhe parece mais romanesco e misterioso! Sem que se dê por tal, ela é apenas curiosa no princípio, logo depois se faz interessada... e é um milagre se escapa de ser amante no fim.

E Honorina, que na cor pálida de seu rosto, na delicadeza de sua compleição, e em todos os seus traços enfim deixava ler esse temperamento, talvez perigoso, mas sempre interessante, no qual a vida está no sentimento, e com o qual somente se sabe compreender, sentir e alimentar essa paixão ardente, cujo fogo não minora, não se extingue, nem ao sopro do infortúnio, nem ao poder da prepotência, e com o qual, enfim, basta a impressão ligeira de uma figura, que se vê na sombra... diáfana... misteriosa, que se adivinha bela, que se sonha, como se deseja para dar um rumo ao batel da vida, que nem um tufão da tempestade, nem a agitação das vagas pode jamais mudar; para dar um doce pendor ao espírito, que nem a docilidade dos conselhos, nem a força de uma ordem, nem o rigor do despotismo pode fazer desaparecer; e Honorina, dizemos nós, romanesca e entusiasta, tinha cedido à força de sua organização e ao enlevo do misterioso proceder do homem que a amava na sombra.

E, portanto, já havia um segredo na vida da moça, e apesar dela uma ação que às vezes a obrigava levemente a corar. O segredo estava em seu coração... ainda pouco inteligível para ela mesma: era o sentimento que começava a votar ao moço loiro; a ação de que levemente corava, era o ter ela guardado a sempre-viva que o zéfiro da manhã lhe atirara dentro da câmara.

Duas semanas estavam passadas depois da noite do sarau; novas amizades tinham vindo ocupar-lhe horas de alguns dias; Lucrécia, que havia alugado uma casa em Niterói, era então assídua junto dela, e a cercava de obsequiosos cuidados; mas Honorina se contrafazia ao pé de Lucrécia... amava a solidão... suspirava em silêncio, e apesar seu... pensava no moço loiro.

Honorina se tinha tornado docemente melancólica, o que fazia ainda mais realçar os seus encantos.

Ela precisava sem dúvida confiar seus sentimentos... seus receios e seu estado a uma amiga; mas Lúcia tinha o triplo da sua idade, e, posto que não hesitara em mostrar-lhe os primeiros escritos do moço loiro, agora ela não podia resolver-se a corar diante dela, confessando-lhe que guardara a sempre-viva, ainda que lhe repetisse as mesmas palavras que costumava dizer a si própria para desculpar-se diante de sua mimosa consciência de moça:

— Não fui eu... meu Deus! foi o teu sopro.

Lucrécia... Lucrécia não era a sua amiga da infância, como Raquel, e Raquel estava longe dela.

Finalmente na manhã de sábado Hugo conveio em levar um bilhete de sua filha a Raquel; e, pois, Honorina escreveu depressa:

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5556575859...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →