Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Pois bem, senhor conde; melhor assim: não terá vossa excelência dificuldade em perdoar-lhe, nem ela ousará acusar seu pai nem seus parentes.
― Se ela tivesse no seu coração como está na sua voz, minha senhora! – murmurou o velho, estendendo-lhe a mão para lha apertar em impulsos de reconhecimento...
João Pedro foi para casa dum lavrador da freguesia, levado pelo doutor sob qualquer pretexto, e ai esperou as ordens, contentíssimo de ter parte no feliz desfecho que prometia o enredo da reconciliação entre a fidalga e seu pai.
Enquanto corria o tempo necessário a dissimular a ida do mordomo e vinda da resposta, examinou Francisco os olhos do conde, e exultou. A cicatrização era excelente. A fotofobia era quase nula. O velho já via através de lentes escuras graduadas as miudezas dos objetos, bem que a insistência lhe desse vágados e ligeiras dores. Ainda assim, Francisco ordenou que continuasse a escuridade no quarto.
Entretanto, lamentava o conde que D. Maria estivesse na cama sofrendo uma impertinente enxaqueca, ao tempo que ele tirara o apósito; e que as trevas do quarto fossem tantas que ele não podia destacar-lhe as feições, porque via tudo a vulto.
Passados os dias convenientes à simulada indagação, Costa, fingindo alvoroço, disse ao conde:
― Alvíssaras! – Aqui está carta de João Pedro para vossa excelência.
― Alvíssaras! – disse o conde. – Pois quem sabe o que aí vem?
― Se ele não encontrasse boas novas, é natural que voltasse logo, ou escrevesse mais tarde.
― Leia, leia então, meu amigo.
A carta dizia que a Sr.ª D. Ângela, no dia imediato, saía para as Boticas, com seu marido e filho. Acrescentava que a fidalga vivia muito pobre, e casada com um plebeu.
Ela será rica, e ele nobre... – murmurou o senhor do paço de Gondar.
Todavia – observou o filho do sacristão – mais grato seria a vossa excelência que ela houvesse casado com homem de geração histórica.
― Todas as gerações são históricas, Sr. Costa – acudiu o conde. – A geração da plebe francesa da minha mocidade é a mais histórica de quantas houve. Está enganado, doutor, comigo, pelo menos. Eu casei com uma pastora dos rebanhos dos meus caseiros. Chamava-se Josefa Salgueira. Amei-a como se ela descesse dum trono para me receber. Ao mesmo tempo que a pastora morria de dor por me ver ferido, a imperatriz da Rússia era uma devassa, e a rainha de Portugal era... a esposa do Sr. D. João VI... Vamos ao caso: vem minha filha? Dê-me agora os parabéns, e deixe-me apertar-lhe a mão de profetisa, Sr.ª D. Maria...
― Vai ver a sua filha... – balbuciou Ângela. – Que transportes de santa alegria vai ter a ditosa senhora!...
― Que tem de mais a mais um filho para brincar com o Antoninho... – acrescentou o general com pueril contentamento, rindo com estranho gesto. – Ó doutor, nesse dia dá-me luz em abundância? Entra o Sol neste quarto? ― Sim, senhor conde. Nesse dia, luz à discrição!
XXX FINALMENTE
E o dia chegou.
Ângela, de manhã, pediu vênia ao conde para ir esperar a Monte Alegre sua filha.
― É de grande honra que ambos recebemos – agradeceu o velho – mas, minha senhora, peça a seu marido que me tire dos olhos estes veuzinhos escuros, e consinta que entre uma réstia de sol à chegada de Ângela.
― Eu vou recomendar o seu justo pedido, senhor conde – disse Ângela, e simulou sair de casa.
Francisco substituiu os vidros por outros mais claros nos olhos do convalescente e mandou abrir as janelas da saleta, por feição que o interior da alcova recebesse bastante luz.
O rosto do velho banhara-se de consolação, vendo distintamente Joana, e o menino que lhe brincava com os óculos, pondo-os no próprio nariz e chamando-se papão.
― Venho ajudá-lo a vestir, senhor conde – disse o facultativo. – Pode vossa excelência passar da cama para a preguiceira, se lhe apraz.
― Se eu pudesse... Mas as pernas, doutor?
― As pernas hão de ser medicadas com bifes e vinho do Porto. Queremos exercício, apetite, e bom estômago. Toca a levantar, meu general.
Ergueu-se trôpego e amparado a Francisco. Depois de vestido, olhava para o sobrado, e chorava de alegria, dizendo:
― Já vejo o chão que piso... Saí da sepultura...
― Ora, senhor conde – tornou o marido de Ângela, depois que o reclinou no canapé. – Vossa excelência deve preparar-se para ver sua filha, como pai, mas também como homem. Se receia grande abalo, predisponha-se para rebater as expansões nocivas à sua compleição debilitada.
― Não há de haver dúvida. Já estou preparado... Sinto o coração; mas coração de setenta anos.
Anunciou-se a chegada de Ângela.
O conde sentou-se com esforçado ímpeto.
― Então! – acalmou Francisco. – Não quero grandes movimentos, senhor conde!...
― Oh, doutor? Não me deixa ser ao menos pai! – sorriu o velho.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.