Por Lima Barreto (1911)
Lucrécio sentou-se e contou os pormenores da execução popular. Zeca era antigo aprendiz de marceneiro. Alistara-se no bando de Totonho, fizera diversas desordens e mesmo mortes. Tinha andado sossegado um pouco, devido à polícia; ultimamente, porém, voltara mais terrível. Extorquia dinheiro a todos do bairro, de revólver em punho, especialmente dos negociantes, gostando também de fazê-lo alta noite aos jogadores felizes. As queixas eram muitas, a polícia o prendia, mas sempre o Dr. Campelo ou Totonho soltavam-no. Naquela noite, no largo do Machado, intimara um cocheiro de carro a dar-lhe algum dinheiro. O “Capote”, tal era o apelido do cocheiro, não acedera e Zeca matara-o a facadas. Perseguido pelos colegas do morto, outros populares se vieram a juntar e, quase em frente ao palácio do Catete, fora morto a tiros de revólver.
— E a polícia? — perguntou Inácio. — A polícia não pode nada.
Inácio não viu bem como legava esse acontecimento ao destino da candidatura de Bentes. Pareceu-lhe ver naquela atitude dos populares, alguma coisa de mais efetivo na manifestação de sua opinião; e notem que Lucrécio estava amedrontado, assustado, como se o povo estivesse a gritar sempre: Mata! Mata! Lincha!
A notícia desse fato teve uma pungente repercussão na cidade. As proezas do assassinado, arroladas pela polícia e não punidas, que os jornais publicaram, deram aos habitantes a idéia de que estavam à mercê do mais audaz. Mesmo a frouxidão das autoridades em apurar tão grave fato indicava que se julgavam felizes por se verem livres do pesadelo que o desordeiro representava; e, se assim era, se não tinham procedido contra ele na forma da lei, denunciava que estavam coagidos, manietados, deixando a fortuna, a honra, a segurança de cada um entregues à sanha dos desalmados de que a polícia precisava para aterrar, asfixiar a opinião e as consciências.
Numa, na manhã seguinte, conforme o seu hábito, depois de ter tomado café, propôs-se a ler os jornais. Com os acontecimentos, a sua leitura era mais descansada e curiosa, estendendo-se a jornais de todos os matizes e feições.
Os periódicos efêmeros, as revistas comentárias, ele os lia ou fazia a mulher lê-los, cauteloso como andava em perscrutar a marcha dos fatos, em precaver-se contra as intrigas, em descobrir de que forma os seus colegas, no entusiasmo pela candidatura do general, enxergavam a sua situação política.
Amanhecera chovendo, um chuvisco fino e intermitente. O dia era indeciso.
As árvores tinham um verde contente e as montanhas estavam encobertas. A velho D. Romana, que raramente se interessava pelos acontecimentos, veio perguntar a Numa:
— Doutor, estão matando gente na rua?
Ficou entre os umbrais da porta. Como que a velha tinha medo de avançar e perguntava com toda a sua forte e boa velhice:
— Doutor, estão matando gente na rua?
Numa descansou a folha e respondeu com acanhamento àquela pergunta em que havia algo de censura maternal:
— Não... Não... Um desordeiro... Não foi nada, D. Romana; isso acontece em toda a parte.
Esteve a velha ainda instantes de pé olhando o marido da neta sem dizer palavra, mas a interrogá-lo com os olhos. Numa evitava olhá-la e os encargos domésticos chamaram-na ao interior da casa.
Não se espantou o legislador com o caso, mas sentiu no ato dos populares um desaforo, uma insolência. Governo é governo; e se protegia o homem....
A mulher veio tomar café na sala em que o marido lia os jornais. Já sabia vagamente fato e inquiriu:
— Numa, que fuzilamento é esse que os jornais trazem?
— Um caso à toa... Um sujeito matou outro e o povo matou-o.
— Por quê?
— Por quê? Porque matou o outro.
Acabando de tomar o café, Edgarda correu os jornais e leu o fato. Não tinha, como o marido, prática desses atos de política e não sabia que esta exigia tanto. A sua impressão foi de desmoronamento. Tudo caía, a lei, a ordem, a autoridade; e na barbaridade dos entrechoques de paixões, a paixão irrefletida da multidão teria de dominar... Acertaria sempre? teria acertado? Por que aquele calaceiro saqueava em pleno Rio de Janeiro? Por quê?
Era a política, era Campelo a garantir-lhe a impunidade e, mais alto, os protetores de Campelo dando a este mão forte e prestígio... Se o Estado é uma coação organizada, essa coação cessava por abdicação do próprio Estado... Era o ruir de tudo... Onde nos levaria tudo isso?... A sua colaboração não seria criminosa?
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.