Por Aluísio Azevedo (1891)
Mediram-se as laminas, os ferros cruzaram-se no ar: os dois fizeram uma rápida oração entre os dentes cerrados pela cólera, e o combate começou feroz.
Abriu-se um instante de silencio, em que o retintim metálico das duas espadas era o único que se ouvia.
Os contendores arfavam, desesperado cada qual pela destreza e galhardia do seu adversário.
— Agora! bramiu Ângelo, caindo a fundo contra o inimigo.
E atravessou-o de lado a lado.
— Oh! gritaram todos, correndo para o lagar do duelo.
E cercaram Ângelo numa trincheira de espadas nuas.
— O meu punhal! berrou o perseguido, desembainhando a terrível arma, que lhe dera o Demônio do Ouro. Assim o querem?... Assim seja!
E abriu aos pulos para todos os lados, cravando unia punhalada a cada salto.
Um a um, iam caindo todos em volta dele, expirando cada qual entre gritos de agonia e uivos de cólera sequiosos de vingança.
Do meio para o fim desta singular hecatombe, os que não tinham recebido o golpe fatal, fugiram, lançando-se do cais às águas da baía. As mulheres rolavam pelo chão, estrebuchando espavoridas, ou jaziam sem sentidos, pálidas e estateladas como cadáveres.
Ângelo viu-se afinal senhor do campo e, ofegando de cansaço, limpou o punhal tinto de sangue nas roupas de uma das suas vítimas.
— Fujamos! disse Alzira, a enxugar-lhe com o lenço de rendas a fronte ressumbrante de suor. Fujamos antes que amanheça!
— Não! opôs Ângelo. Vamos beber ainda, e esperamos a aurora abraçados os dois sobre estes coxins feitos para a volúpia!...
Mas, no momento em que levava aos lábios a ânfora de vinho, arremessou-a para o lado, soltando um terrível grito de pavor.
Defronte dele, com os braços cruzados, os olhos faiscantes e o rosto fulo e sinistro como uma caveira, erguia-se o espectro do macilento cura de Monteli.
Ângelo recuou fulminado.
E o pároco, sem descruzar os braços, caminhou para ele atravessando-o com o seu claro olhar de sacerdote intransigente.
— Crápula! exclamou, chegando-lhe a boca ao rosto. Assassino! Bêbedo! Ladrão!
O amante de Alzira pôs-se a tremer. O outro prosseguiu:
— Em que imundo esgoto perdeste tu a tua vergonha e a tua consciência, miserável?... para andares sem pudor a vagabundear ao lado de uma infecta prostituta? ...
— E que tens tu com isto, hipócrita?... interrogou o Ângelo boêmio, recuperando o sangue frio. Acaso vou eu tomar-te contas das ridículas pantominices que levas a praticar durante o dia em Monteli?... Interrompo porventura a farsa das tuas missas, quando charlataneias o teu irrisório latim e ergues ao ar, espetaculosamente dois dedos de vinho e três de obreia, proclamando que é sangue e corpo de Cristo... o que vais ingerir?... Já fui eu lá dizer-te ao ouvido que isso é uma truanice, tão digna de desprezo quanto de lástima?... Já fui eu lá insinuar aos teus devotos que os teus milagres são mentiras, como é mentira a tua fé, como é mentira a tua ciência, como é mentira a tua religião?... Não me venhas pois aborrecer, onde não és chamado, e volta para a tua pestilenta aldeia, que tens lá quem precise dos teus desvelos e dos teus conselhos. Dá-los ao filho da viúva Thevenet!
O presbítero, ouvindo este nome, estremeceu por sua vez. Sacudiu a cabeça e disse revoltado:
— Até tu, alma perdida! até tu finges não compreender a verdade a respeito dessa infeliz criança.
— Não sou eu quem te acusa; são todos! Nada mais faço do que repetir a voz do povo, que é a voz de Deus! Some-te da minha presença!
— Sim! mas deixa essa mulher!
— Por que? Ah! compreendo! são os ciúmes que te agitam, hein? Magnífico!
— Deixa essa mulher, já disse!
— Queres que a deixe contigo, talvez!...
— Obedece-me ou eu tomar-ta-ei à força!
— Não tentes experimentá-lo, porque ficarias aqui mesmo estendido por terra com esses outros imprudentes que aí estão! Vai-te embora, desgraçado!
O pároco foi ter com Alzira e tomou-lhe as mãos.
— Acompanha-me, disse, com ar de súplica.
A cortesã olhou para ele, olhou para o outro, e abaixou os olhos, hesitando perplexa.
— Não vens comigo?... interrogou o padre, arfando de cólera e ciúme.
— E ele? balbuciou a cortesã. Como deixá-lo?... Bem vês que não posso!...
— Aqui! A meus braços! ordenou o outro Ângelo, batendo o pé. Já! Não dês ouvidos a esse embusteiro!
Alzira chegou-se para o amante folgazão, obedecendo submissa.
Então o pároco, sem dominar a cólera, atirou-se contra o rival, tentando estrangulá-lo.
Alzira, percebendo que aquele arrancava o punhal da cinta, apoderou-se do ferro traiçoeiramente e lançou-o ao mar.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.