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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Estava nestas circunstâncias, quando foi surpreendido pela inesperada visita do Sr. Windsor. O negociante inglês apareceu­lhe desarmado da sua habitual fleuma, e falou­lhe da filha com franqueza. Gabriel representava um papel importante na triste sorte daquela menina.

Gaspar principiou então a acompanhar de perto a moléstia de Eugênia.

Ao ir ter com ela, o estado da rapariga o comoveu. Entretanto, a mísera não lhe queria confessar as causas verdadeiras do seu sofrimento; tinha um como pudor da desgraça. Gaspar, embalde, fazia por merecer­lhe a confiança, ela era sempre a mesma reservada e orgulhosa.

Quando o médico lhe falava de Gabriel, a pobre enferma sorria tristemente e disfarçava as lágrimas.

Impressionava ao vê­la, tão pálida e fraca, estendida sobre as almofadas de uma poltrona; entristecia contemplar o negrume arroxeado dos seus olhos e as sinistras manchas das suas faces descoradas. Estava outra! desaparecia­lhe a voz na garganta, e de vez em quando a tosse lhe sacudia todo o corpo, como para o despertar do marasmo que a prostrava.

Acabada a crise, ela sorria.

O Sr. Windsor andava estonteado, chorava. Ursulina fazia promessas aos santos, e até Emília parecia triste. A casa toda se cobriu de luto e melancolia.

Gaspar persistia em lá ir, e mostrava­se incansável com a enferma.

Foi então que ele procurou Gabriel pela terceira vez.

O enteado, logo que o viu, notou­lhe a grande preocupação que lhe traía nos gestos; abaixou os olhos e corou.

— Como até agora não me apareceste em casa, disse o Médico Misterioso, decidi vir à tua procura, disposto a cumprir com o meu dever, custe o que custar.

— A meu respeito?...

— Sim, meu filho, a teu respeito, e a respeito também de uma pobre menina, a quem estás assassinando, sem consciência do crime que cometes!...

— Assassinando, eu?! Ah! trata­se de Eugênia, não é verdade?

— É justamente dela que se trata; é desse pobre anjo, cujo coração encheste de ilusões, para depois cruelmente o despedaçares.

Gabriel abaixou de novo os olhos, deixando agora pender a cabeça, intimamente aflito.

— Cumpro um dever! continuou Gaspar. Venho buscar­te, e estou resolvido a lançar mão de todos os meios para te carregar comigo. Se não vieres, Eugênia morrerá, e serás tu o seu assassino...

Gabriel não dava uma palavra. Arfava­lhe o peito.

— Além disso, considerou o outro, aonde te poderá conduzir a existência que aqui levas? Principio a temer­lhe as conseqüências. Estás um perfeito ocioso; já não estudas, já não trabalhas!... Nada mais fazes do que amar uma diabólica mulher, que te absorve o espírito e te corrompe o coração!

— Enganas­te, Gaspar!... Ambrosina não é o que supões...

— De sobra conheço a vida para me haver enganado. Jamais conseguirás ser feliz, caminhando deste modo e vivendo no meio da escória que te cerca. Não serão os Regos e os Melos Rosas que te conduzirão ao bom caminho! Estás na idade em que todo o moço decide do seu destino... Se não mudares de conduta, se te não resolveres a trabalhar, se te não fizeres homem de bem, se não tratares enfim de aceitar a responsabilidade da tua vida — virás a ser fatalmente um desgraçado! O fato de haveres nascido rico, não te dispensa dos teus deveres de homem e de cidadão, aumenta ao contrário a tua responsabilidade, porque não tens sequer a desculpa da miséria.

— Acredita, Gaspar, que as cousas mudarão!...

— Receio que não mudem, ou que mudem para pior. O que te afianço é que já representas aos meus olhos um papel bem digno de lástima!... És indecentemente explorado por meia dúzia de cavalheiros de indústria, que se dizem teus amigos. Aquele Melo Rosa é um gatuno!

— Gaspar, peço­te que moderes um pouco a tua exacerbação!...

—Não! não tenciono moderá­la. Disse que cumpria um dever, e é com a consciência dele que procedo neste instante! Não é a própria severidade que me faz esbravear contra aqueles vadios, é o amor que te voto é a compaixão que me inspiras! Tu, meu filho, não tens prática alguma da vida, nem sequer te foi dada pela sorte a inestimável faculdade de precisares trabalhar para viver. Onde queres formar o teu caráter?... Aqui, nesta casa tresandando a desordem e a loucura?! Ao menos, se me aparecesses, para que eu te guiasse com os meus conselhos... mas tu te escondes de mim e tens medo das minhas palavras! Enquanto estás aqui, encerrado no calor voluptuoso deste latíbulo, enquanto passa a vida à fralda de uma mulher, os rapazes de tua idade formam lá fora uma geração forte e trabalhadora; enquanto te amoleces com o perfume dos cabelos de Ambrosina e com o champanha da tua adega, eles, os moços de tua idade invadem o jornal, o livro, a tribuna e a vida pública! Por que não acompanhas a onda do teu tempo? Concordo que ames Ambrosina e que por ela sejas amado, mas isso não é razão para que não cumpras com teus deveres. Esta vida, que aqui levas aos seus pés, sem dignidade e sem consciência, só vos poderá conduzir ao desprezo social; a ti pela libertinagem, a ela pela prostituição!

(continua...)

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