Por Franklin Távora (1878)
Uma das suas. Mas o pior foi o que fez o ladrão do moleque, o Germano. Em vez de ser pelo senhor, prometeu ser pelos mascates e botar água dentro das armas, quando o engenho for atacado. Que negro ingrato e perverso! Tive desejos de lhe dar um tiro na cabeça, quando lhe ouvi as traidoras palavras. Mas eu nunca atirei em ninguém.
- Virgem Maria! exclamou Marcelina. Pois querem atacar o engenho?
- Foi o que disse Pedro de Lima. Germano não tarda a passar por aqui. ah! Ali vem ele. - E que queres fazer? Queres dizer-lhe alguma coisa?
- Quero, sim senhora.
- Vai para dentro, que eu falo ao moleque. Ele a mim há de atender mais do que a ti.
- Ainda bem não tinha Lourenço entrado, quando o negro passava pela frente da casa trazendo o saco de batatas nas costas. Se não me engano, é Germano que vai aí, disse Marcelina em voz alta, a fim de ser ouvida. Sou eu mesmo, sinhá Marcelina, respondeu o negro. Quer alguma coisa?
- Eu logo vi que tu ainda havias de andar por aqui. Porque diz vosmecê isso?
- Se não vais com muita pressa, dá-me cá uma palavra.
O negro parou à porta da casa.
-Senta-te nessa pedra que te quero dizer uma coisa.
- A pedra está muito quente eu oiço mesmo de pé o que tiver de me dizer. Pois olha; nessa pedra mesma esteve ele sentado, há pouquinho.
- Ó xentes! Ele quem, sinhá Marcelina?
- Anda cá. Pois tu não sabes quem podia ser? O Pedro de Lima.
- Seu Pedro de Lima?! perguntou o negro subitamente alterado. Ó xentes! Seu Pedro de Lima!
- Então, ele não andou por estas beiradas ainda agorinha? Quererás negar?
- Ele andou, é verdade, respondeu Germano, entre aterrado e tremulo.
- E que coisas te disse ele?
- Pois vosmecê sabe o que ele me disse?
- Chega-te para perto de mim, que eu não te quero botar a perder, Germano.
O negro aproximou-se, com passo tardo, porque em cada pé começou a sentir o peso de uma arroba, depois que ouvira as ultimas palavras da cabocla.
- Queres saber o que foi?
- Diga, sinhá Marcelina.
Ele esteve contigo na palhoça de Moçambique, e falando-se aí sobre os motins que tem havido na vila e a revolta dos mascates do Recife, tu te ofereceste a botar água dentro das armas de teu senhor, para elas não pegarem fogo, quando o bando de Tunda-Cumbe atacasse o engenho.
Não se pode imaginar a impressão de medo, dor, arrependimento e cólera, que estas palavras produziram no espirito do negro.
Sem o querer, caiu-lhe do ombro o saco, e ele próprio, para sustentar-se de pé, teve de apoiar-se no ferro de cova que trazia em uma das mãos.
- Ora, dize-me, Germano, prosseguiu Marcelina: isto era coisa que tu dissesses àquele malvado? Podias tu prometer semelhante traição contra teu senhor, que te estima, e que, até já tem, por vezes prometido forrar-te? És um escravo indigno de ter liberdade.
O negro não respondeu. Triste, cabisbaixo, imóvel, não sabia o que dizer à cabocla.
Esta prosseguiu:
- Pois não seria muito mais bonito que, em vez de seres traidor e ingrato a seu sargento-mór, fosses o primeiro a defendê-lo na hora do ataque? Não terias tu muito mais segura a tua alforria, se, quando Pedro da Lima partisse contra seu sargento-mór, tu partisses contra Pedro de Lima, e com a foice, o facão, o chuço ou o bacamarte impedisses que ele fizesse mal a teu senhor ou á tua senhora?
Germano não era um negro bronco.
Ouvindo estas palavras, percebeu que nelas se lhe oferecia uma porta para sair da situação cruel e desprezível a que fora arrastado.
Então soltou-se-lhe a voz, que estava presa.
- Eu quero contar a vosmecê a historia como foi. Seu Pedro de Lima foi quem me fez esta proposta, com a promessa de minha liberdade. Vosmecê bem pode saber que todo cativo deseja ficar livre, ainda que seja muito bem tratado por seu senhor, como sou eu na escravidão. Eu prometi fazer isso que ele disse, mas depois que ouvi suas palavras, estou arrependido; e posso jurar que não cumprirei a promessa que fiz a seu Pedro.
- Estarás tu dizendo a verdade, Germano?
Eu sou negro, sinhá Marcelina, mas não minto. Pode vosmecê crer que estou muito arrependido da minha ruim ação. Só uma coisa lhe peço: é que não vá dizer isso à minha senhora.
- Se eu quisesse fazer mal, já tinha corrido para lá a meter-lhe tudo no ouvido. Mas tu sabes que eu tenho bom coração. Antes quis aconselhar-te do que fazer-te a cama, mesmo porque esperava que mudasses de parecer. Tu estás muito moço; não te apresses que hás de Ter a tua liberdade, não pela mão de Pedro de Lima, ou do Tunda-Cumbe, mas pela mão de teu senhor mesmo. Vai-te embora descansado, que nada por minha boca se há de saber do que temos conversado. Pela boca de Pedro de Lima é que eu não respondo. O negro levantou o saco, pô-lo novamente no ombro, e disse:
- Pela boca dele, sinhá Marcelina, respondo eu. o que ele acaba de fazer comigo, há de pagar-me com língua de palmo e meio.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.