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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

É notável a carta que, a 22 de abril de 1753, dirigiu o bispo ao governador. Ei-la aqui: “Esteja V. Exª certo de que o mosteiro do Desterro há de ser mosteiro de religiosas carmelitas reformadas, e que se há de servir a Deus nele, e que Deus lho há de pagar a V. Exª: nisto tenho eu fé; mas se Jacinta de S. José há de ser freira nele ou não, para isto nem tenho fé, nem tenho luz; mas é grande e infinita a misericórdia de Deus, e sua divina onipotência.”

E esta profecia realizou-se, porque o mosteiro do Desterro tornou-se convento de carmelitas descalças. Mas, nem o conde de Bobadela pôde vê-lo, nem Jacinta de S. José conseguiu ser freira professa, nem o Bispo d. frei Antônio do Desterro testemunhou aquele fato, pois que todos morreram antes que isso tivesse lugar.

Entretanto, a diretora das reclusas, Jacinta de S. José não se dobrava à manifestação da vontade do bispo. Parecia-lhe que em suas visões recebia do Céu uma ordem para prosseguir no seu empenho. Quando o silêncio reinava para todas as suas companheiras, a voz de um anjo, a voz de Stª Teresa, a voz de Deus soavam aos seus ouvidos e lhe diziam: “Avante!” A flama da inspiração cada vez mais brilhante se acendia em sua alma.

Em novembro de 1753, Jacinta deixou inopinadamente o mosteiro, e embarcando-se para Lisboa, dali voltou em 1756, chegando ao Rio de Janeiro a 17 de abril e trazendo consigo um breve apostólico que satisfazia as suas aspirações, e que obtivera por pedido feito por el-rei a Sua Santidade.

Mas, nem assim, pôde vingar a suave esperança de Jacinta.

Os anos correram em lutas estéreis e em objeções mutiplicadas.

No dia 1º de janeiro de 1763, o conde de Bobadela, estrênuo protetor das reclusas, exalava o último suspiro e antes de morrer manifestava a pena que sentia por não ter podido consumar os seus desejos em prol da instituição das carmelitas reformadas, dizendo: “A casa de Bobadela fica feita; mas as minhas filhas ficam ainda sem casa.”

A casa de Gomes Freire de Andrade estava, com efeito, pronta na Igreja de Nossa Senhora do Desterro. O seu cadáver foi encerrado em um jazigo do presbitério dessa capela, e sobre a campa não se lhe gravou epitáfio algum.

Quase seis anos depois, a 2 de outubro de 1768, Jacinta de S. José morria placidamente no meio de suas irmãs, que a cercavam banhadas em pranto.

A história desta piedosa donzela é um longo canto de amor celeste e de puro misticismo; um longo gemido de dores e sofrimentos na Terra. Não é a história de uma mulher, é a lenda de uma santa. A imaginação e as prevenções de alguns dos seus contemporâneos encheram de absurdos e ridículos episódios a relação da sua vida. Mas, indubitavelmente, passaram-se nela fenômenos extraordinários, e é pelo menos impossível duvidar do entusiasmo que exaltava a donzela, da inspiração que enlevou o seu espírito e das virtudes que lhe deram reputação de santidade.

Jacinta não foi carmelita descalça: foi, porém, a verdadeira fundadora do Carmelo brasileiro.

Como era de prever, os restos mortais daquela religiosa inspirada descansaram na igreja de Nossa Senhora do Desterro. A flor murchou, desfolhou-se e caiu no seio do próprio jardim.

A Rainha d. Maria I, por decreto de 11 de outubro de 1777, confirmou licença e graça concedidas por el-rei seu pai às religiosas reclusas; e enfim, o Bispo do Rio de Janeiro D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco, com pomposa solenidade, lhes deu clausura canônica em 16 de junho de 1780, e pontificando no seguinte dia na igreja do novo convento, vestiu aquelas dedicadas filhas de Santa Teresa canonicamente de seus hábitos e lhes abriu o noviciado.

A 23 de janeiro de 1781, tomaram o véu as primeiras freiras professas de Santa Teresa do Rio de Janeiro.

Três dias antes dessa solenidade, os habitantes de Sebastianópolis acudiram a testemunhar um espetáculo novo para eles, e que talvez mais nunca se repita.

Para se proceder ao ingresso do convento e a outros atos relativos à profissão das novas esposas de Cristo, tiveram as noviças de recolher-se ao mosteiro das religiosas de Nossa Senhora da Ajuda, e desceram, pois, procissionalmente do monte do Desterro, seguindo até aquele convento acompanhadas por imensa multidão que as olhava misturando uma explicável curiosidade com o respeito o mais profundo. As noviças, confusas e tímidas, atravessavam as ruas de um mundo que já não era delas, e por baixo de seus véus ardiam-lhes as faces com o fogo de um santo pejo, quando ouviam as aclamações de um povo essencialmente religioso.

Na véspera do dia solene, voltaram elas seguidas do bispo e entraram para o convento que começava a ser de Santa Teresa.

Viram-se então, naquela comovedora cerimônia da tomada do véu, religiosas que tinham entrado moças e envelhecido no recolhimento, e jovens que ali haviam achado um berço, pois que apenas com alguns dias de nascidas, ou com dois anos de idade, tinham sido trazidas por seus pais ao piedoso retiro.

(continua...)

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