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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

E para quem poderia voltar-se Juliana, pedindo conselho, protecção, auxilio e luz ?...

Para sua mãi ?... não se animaria nunca ; temeria vel-a justamente irritada lançar fora o homem insolente que dirigira proposição tão injuriosa á sua filha.

A Fábio ?... era um rival e ura inimigo de Jorge de Almeida, pois que o reputava indigno até de entrar no sacrario de uma família.

— Então a quem ?...

Quando os nossos olhos não achão rocurso na terra, levantão-se naturalmente para o céo, e procurão o auxilio de Deus.

Falla-se a Deus com a esperança, com a fé, com a oração, e Deus responde, serenando a tempestade que agita o seio do afflicto, e illuminando o seu espirito.

Mas Juliana era incrédula ; não tinha fé, e zombava, pobre infeliz, do recurso da oração.

XII.

Fábio não tinha mais apparecido na casa de Cândida depois daquella noite de saráo para elle tão triste; no quarto dia porém, a saudade, o amor, e um nobre interresse o levarão ao tecto querido. Era de tarde, mas ainda cedo. Juliana estava no seu quarto acompanhada de sua mãi, e ahi mesmo recebeu o mancebo a quem a confiança quasi fraternal dava direito a semelhante liberdade.

Cândida estimava Fábio, adivinhara o amor que elle tributava a Juliana, sentia não poder abençoar a união dos dous jovens ; mas por isso mesmo e no ponto em que se achavão as cousas, entendeu que lhe cumpria apagar logo e para sempre a debil flamma da esperança que por ventura se conservava ainda accesa na alma do desgraçado amante.

Assim, depois de breves momentes de conversação, Cândida deu parte a Fábio do ajuste de casamento de Jorge de Almeida com Juliana.

O mancebo, ao receber a cruel noticia tornouse pallido, como se o véo da morte por seu rosto se houvesse estendido : seus olhos cerrarão-se, e duas lagrimas, expressão eloqüente de uma dôr profunda abafada com esforço no coração, vierão rolar por suas faces.

Cândida não poude resistir sem abalo ao aspecto daquelle mudo e immenso padecer, e sentindo-se fortemente commovida, levantou-se e sahio.

— Fábio ! disse Juliana; meu amigo... meu irmão, que é isso ?...

— Tu o perguntas, Juliana?... murmurou o mancebo, quando poude fallar.

— Não podíamos ser um do outro e...

— Oh ! exclamou Fábio ; pois bem ! mas não devia ser delle ! devias fazer a felicidade e a gloria de um homem extremoso e honrado; nunca porém ser o prêmio concedido á libertinagem e ao cynismo !

— Senhor!

— Ainda é tempo de salvar-te, e ninguém me impedirá de dizer a verdade, Juliana . Jorge de Almeida é um infame, e procura seduzir-te.

— Envergonha-te, Fábio, e arrepende-te da calumnia que proferiste ! disse Juliana, correndo ao seu toucador, e tirando delle as cartas dos pais do Jorge, que ella entregou ao mancebo.

— Embora ! tornou este depois de ler as cartas e de vencer um primeiro movimento de surpreza : estas cartas me confundem ; mas ainda assim eu desconfio das intenções desse homem, embora, sim ! elle é sempre um infame.

— Fábio, tu ousas insultar diante de mim aquelle que em breve será meu marido ?

O mancebo respondeu a estas palavras com um gemido surdo e pungente ; não se submetteu porém, nem guardou silencio. Um pouco exaltado pelo ciúme, e realmente muito inteessado pela sorte de Juliana, referio um por um todos os factos escandalosos que tornavão a vida de Jorge de Almeida uma longa historia de orgias, de seducção e de desmoralisação.

Juliana, perdendo emfim a paciência, ferida no seu amante, como uma mãi em seu filho, levantou-se irritada :

— É de mais ! bradou, e pois que a con sciencia do dever não lhe ensina a respeitar- me, ensine-o o meu solemne desprezo !

E sahio, voltando as costas a Fábio, que indo precipitar-se em seguimento delia, passou por diante do toucador, e vio sobre elle o ramalhete de violetas que Jorge offerecêra a Juliana na noite do saráo.

— Oh ! exclamou elle, o ramalhete infernal!...

E apoderando-se das flores já murchas correu como um desvairado, e atravessava impetuoso a sala, quando parou a um grito de Juliana.

— O meu ramalhete !... ah! Fábio? o meu ramalhete!...

O mancebo voltou-se arrebatado, e vendo diante de si Juliana lacrimosa e supplicante, lançou sobre ella um olhar de commiseração terrivel, e atirando o ramalhete em cima do piano, desappareceu.

XIII.

Juliana estava ainda profundamente commovida e immovel, no mesmo logar em que Fábio a deixara, quando Jorge de Almeida entrou na sala.

A presença de seu noivo socegou em breve a donzella que, receiosa de alguma rixa entre os dous mancebos fez um segredo da scena que acabava de passar-se.

(continua...)

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