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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Tomara eu ver a dança! acudiu o pajem. 

- Olhem lá! Cuidado em trancar a negralhada no quadrado, senão está tudo perdido. 

- Isto é com Monjolo! 

- Monjolo arranja tudo, deixa estar. 

- Quando estiverem bem seguros é só dar o sinal, que o fogo rebenta cá no canavial. O diabo corre para acudir; e aí você, rapaz, tranca também a gente da casa, a mulher e os filhos, e espera, que eu não tardo, para arranjar a história. Ouviram vem?...  

- Não tem dúvida! disse o Faustino. 

- Você que é mais ladino, explica bem àquele pai. 

  Riu-se o Monjolo, com uma expressão bestial que parecia confirmar o dito.  

- Mas... replicou o Faustino. Eu cá é com a condição que o senhor sabe. Eu fôrro; a Rosa, para mim; e o mulato surrado como canhambola. 

- Pois está entendido! disse o Barroso. Foi o ajuste. 

  Fuzilou uma chispa na rúbida pupila do africano. 

- E tu, paizinho? 

- Monjolo não quer nada, senão gimbo muito para comprar fumo e cachaça. 

- Fica descansado. 

  Separaram-se os cúmplices. O pajem voltou à casa, Monjolo à roça, e Barroso foi juntar-se a pouca distância ao Gonçalo Pinta, que o esperava com dois animais à destra. 

  Apenas se desvaneceu o rumor dos passos, que um galho murcho atirado a um canto da barranca se agitara, descobrindo a boca de um covão, talvez de tatu canastra, de onde saiu de rojo meio corpo do Brás. 

  Daquele esconderijo, a que se acolhera para o não surpreenderem, ouvira o idiota a maquinação do Barroso, e, fato incrível, a compreendera, ou antes a sentira, porque não fora pela razão, mas por uma sorte de faro moral, que recebera essa percepção. 

Adivinhara a intenção dos cúmplices, como o animal carniceiro conhece o desígnio do caçador e o acompanha para aproveitar dos despojos das vítimas.   Um riso, que ressumbrava brutal crueldade, arregaçou-lhe os beiços estúpidos. 

 

XXXI 

Pai Quicé 

 

  Sentado o Brás num torrão de argila, que esbroara da barranca, entregou-se a uma singela ocupação. 

  Tirou do seio um embrulho de folhas de inhame, onde prendera uma boa porção de gafanhotos, que poucos momentos antes apanhara a devorarem um arbusto. Espetando cada qual em um espinho de juçara, fincou-os no chão, diante de si, até o número de seis. 

  Terminada esta operação, começou o sandeu a ranger os dentes, espumando de raiva e ameaçando os insetos com os punhos crispados. Enquanto se desarticulava nessa furiosa gesticulação, escapavam-lhe dos lábios sons estranhos e guturais como o grunhido de um porco, ou o ganir de um cão. 

  As pupilas vítreas esbugalhavam-se com as contorções da fúria brutal que lhe contraía os músculos faciais. Eram as fosforescências de um ódio violento, que iluminavam de reflexos lívidos esse olhar, de ordinário morno e fusco. 

  Afinal tomado de um acesso de ira, saltou o idiota sobre uma pedra, e com ela esmagou freneticamente, um a um, todos os seis gafanhotos. Não contente com este suplícios, ainda por cima trincou nos dentes a cabeça daqueles que tinham sido poupados por seu açodamento. 

  Ofegante, exausto pela violência das emoções, prostrou-se por terra e aí ficou por algum tempo arquejando. 

  Era o desgraçado menino um estranho aborto da natureza. De todo bronca e estúpida, tinha contudo essa monstruosa organização bem vivo e patente o instinto do mal. Parecia que o aleijão, privando-a da alma racional, não reduzira só o homem à condição de bruto, mas o tinha logo demudado em fera. 

(continua...)

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