Por José de Alencar (1872)
Apanhado de surpresa, quando pensava que o Benício ia devagar, protestou Ricardo não cair mais no logro de escutálo; e tomando a palavra começou a fazer ao companheiro a descrição pitoresca da Tijuca.
- Mais bonito do que a “Vista chinesa”, é o “Bico do papagaio”. Ali é que eu o queria ver, Sr. Benício, para comparar os dois picos. No de lá há justamente por cima do nariz da pedra uma árvore que finge bem um chapéu de sol!
- Não faça cerimônia, Sr. Doutor! atalhou o Benício voltando à carga.
O amanuense divertia à maneira das caricaturas, que depois de vistas, se tornam monótonas.
Assim era o nosso homem quando ele exibia algum de seus perfis, de um cômico irresistível; mas à força de reproduzir-se com a regularidade de autômato, caía em uma insipidez esmagadora.
Não tardou que Ricardo sentisse invadi-lo o tédio a ponto de não poder mais suportar nem a vista do amanuense. Para subtrair-se a esse foco de aborrecimento, apressou o animal:
- É de primeira força! disse Guida lendo-lhe no rosto.
- Com efeito! Não imaginava!
- Há pouco não dizia o senhor que a vontade ou o capricho é um rei? Pois tem destes cortesãos!
- Ah! É preciso! São os cortesãos que vingam os oprimidos; quando não comprometem, intrigam ou traem os soberanos, ao menos lhes moem um pouco a paciência.
- Não duvido da utilidade dos cortesãos, respondeu sorrindo a moça. Mas quanto à sua comparação, não a acho exata. A respeito de capricho há de concordar, que devo entender alguma coisa.
- Muito!
- Por uma simples razão! Sou muito caprichosa.
- Não acredito!
- Se eu confesso!
- Por isso mesmo.
- Há de mudar de opinião.
- Bem, pode ser. É a moda.
- O capricho está bem longe de ser rei. É apenas o valido, o primeiro-ministro ou presidente de conselho, a quem o rei eleva acima dos outros súditos para ter o prazer de o contrair, de picar-lhe a vaidade, de crivá-lo de alfinetes como ao Sr.***
Guida pronunciou o nome; eu porém que não estou para divulgar a malignidade, e comprometer-me com gente poderosa, substituo-lhe a reticência estrelada.
- Mas quem é o rei desse valido? perguntou Ricardo.
- O rei? É o mundo, e portanto qualquer pessoa. Pode ser o senhor, por exemplo.
- Eu?
- Por que não? Vou lhe confessar uma fraqueza minha. Eu tenho nestes momentos três desejos... Não cuide que são os da caixinha do jogo de prendas.
- Ainda bem; eu já me tinha lembrado do Sr. Benício e de seu chapéu de sol.
- Qualquer desses três desejos depende do senhor; entretanto eu estou certa que não é capaz de satisfazer a nenhum. Estava Ricardo surpreso ao último ponto da direção que tomara a conversa; mas o modo natural de Guida, e a garridice com que falava, o punham a gosto.
- Está me metendo em brios, notou o moço a rir.
- Também tenho a minha diplomacia.
- Mas enfim sem conhecer os tais desejos, é que nada posso dizer.
- Decerto! Há quase um mês, que estão me tentando! E eu perderia esta ocasião de acabar com eles; pois bem, convencida de que não posso satifazê-los...
Guida levou a mão aos lábios e soltou um arrulo gracioso, que pareceu, com o gesto, desfolhar nos ares:
- Prrr!... solto-lhes as asas e... Adeus, pombinhos!
- Quem sabe?... A senhora está figurando a coisa como muito difícil, para sazonar o gostinho. Aposto que eu vou, como a lâmpada de Aladino, realizar esses grandes desejos, o primeiro dos quais eu já adivinhei.
- Ah!
- É tirá-la da sombra implacável de um monstro verde-gaio...
- Ora! Eu já nem me lembrava disso.
- Bem; já vejo que não sou forte na adivinhação; o melhor é escutar.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.