Por José de Alencar (1875)
O Campelo não era cruel, como outros muitos potentados do sertão; mas o seu rigor em manter o respeito à sua autoridade, tornara-se proverbial. Nesse ponto mostrava-se inflexível.
Referiam-se como exemplo, casos de indivíduos a quem êle mandara buscar aos confins do Piauí e às matas da Bahia, onde se haviam refugiado, para castigá-los do desacato cometido contra sua pessoa, passando pela frente da Oiticica sem tirar o chapéu, ou pronunciando o seu nome sem a devida reverência do tratamento e título.
Eram faltas estas que êle não perdoava, nem esquecia. Embora decorressem anos, em tendo notícia do culpado, despachava uma escolta para prendê-lo, onde quer que estivesse. Satisfeito, porém, o seu orgulho, aplacava-se de todo a ira; assim a maior parte das vezes o castigo não passava de um ato de submissão e quando muito de uma prova expiatória. Obrigava o atrevido a pedir-lhe perdão de joelhos, ou mandava amarrá-lo ao moirão por um dia inteiro.
Arnaldo, que sabia dêstes fatos e conhecia a severidade do capitão-mór, julgava-se banido da Oiticica para sempre; pois não lhe consentia o seu gênio fazer contrição da culpa e pedir perdão da desobediência. Mas essa índole altiva que nenhuma condideração, nem mesmo o amor de D. Flor conseguia dobrar, não resistiu ao rasgo de generosidade do velho.
O caráter de Arnaldo tinha êste traço especial. Zeloso de sua independência, e de extrema suscetibilidade nesse ponto, a menor aspereza, qualquer gesto imperativo, bastava para revoltar-lhe os brios e torná-lo arrogante, como acontecera na mesma noite do aparecimento da Bonina, quando ofendido pela repreensão de D. Flor, lançara ao fogo o mimo da donzela.
Por outro lado também o coração indomável era de cera para os sentimentos afetuosos. Uma demonstração de amizade, um afago, obteria dele sacrifícios a que nenhum poder humano teria fôrças de o compelir jamais.
Porisso, depois do que acontecera, não teve ânimo de contrariar de novo e tão proximamente o desejo do capitão-mór. Prestou-se a desempenhar por algum tempo o emprêgo de vaqueiro, do qual o afastavam os seus instintos de liberdade, os hábitos de sua vida nômade, e mais que tudo uma repugnância invencível de servir a qualquer homem por obrigação e salário.
O vaqueiro não entra na classe dos servidores estipendiados; é quase um sócio, interessado nos frutos da propriedade confiada à sua diligência e guarda. Esta circunstância levou Arnaldo a condescender por enquanto com a vontade do capitão-mór. Fosse outro emprêgo, que a-pesar-da disposição de seu ânimo, não o aceitaria por uma hora.
É de presumir que mais tarde se revele a causa oculta desta repugnância do sertanejo. Talvez a inspire o mesmo sentimento, que, em todas as ocasiões e ainda mais durante o passeio, o conservava arredio da comitiva, como uma pessoa estranha à família.
— Onde ficou o capitão Fragoso de esperar-nos, D. Genoveva? perguntou o capitão-mór à mulher.
— Na marizeira.
— Ouviu, Agrela? disse o fazendeiro, voltando-se de leve para falar ao ajudante por cima do ombro.
— Ouví, sr. capitão-mór. É daqui a meia légua.
II – A montearia
Tinha nascido o sol.
Aos primeiros raios que partiam do oriente e se desdobravam pela terra como uma vaga de luz, a natureza, rorejante dos orvalhos da noite, expandiu-se em toda a sua pompa tropical.
A cavalgada atravessa agora uma zona, onde o sertão ainda inculto ostenta a riqueza de sua vária formação geológica.
De um lado, para o norte, os tabuleiros com uma vegetação pitoresca e original, que forma grupos ou ramalhetes de arbustos, semeados pelo branco areal e divididos por um interminável meandro.
Do outro lado, o campo coberto de matas, no meio das quais destacam-se as clareiras, tapeteadas de verde grama e fechadas por cúpulas frondosas, como rústicos e graciosos camarins.
Além a várzea, levemente ondulada como um regaço, e coberta de grandes lagoas formadas pelas águas das chuvas recentes.
Do seio dêsse dilúvio, surge uma criaçãovigorosa e esplêndida, que parece virgem ainda, tal é a seiva que exubera da terra e rompe de toda a parte nos abrolhos e renovos.
Alí são as carnaúbas que flutuam sôbre as águas, como elegantes colunas, carregadas de festões de trepadeiras, donde pendem flores de todas as côres e aves de brilhante plumagem.
Mais longe as touceiras de cardos entrelaçam suas hastes crivadas de espinhos e ornadas de lindos frutos escarlates, que atraem um enxame de colibrís. Aí dentro da selva espêssa, fez a nambú seu ninho, onde piam os pintinhos implumes.
Era então fôrça do inverno.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.