Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
A roda vai sempre girando. Os que foram filhos chegam um dia a ser pais, e enfim, vem também o tempo em que eles sentem por sua vez o que fizeram outrora experimentar a seus pais.
Não sejam os homens acusados por isso... pois que todos seriam réus e ninguém poderia ser juiz. Os homens não têm culpa; a natureza é que é a ingrata; mas o fato é esse.
Solteiro, porém, ou casado, o filho continua sempre a ser o pensamento da alma de seus pais. É a luz que lhes brilha na vida. Quem foi que pôde já consolar aqueles que perderam um filho?... o tempo?... o tempo dá somente resignação; muda o nome, crisma a dor; em vez de aflição, chama-a saudade, mas os pais não esquecem o filho que lhes morreu senão quando morrem.
Porém, nada pode ser eterno: tudo tem um fim. E esse amor deve acabar um dia... acaba na sepultura.
É esta a mais ligeira idéia que se pode dar, muito de passagem, do amor paternal.
Se nem todos amam com a mesma força a seus filhos, amam-nos sempre e a natureza do afeto é a mesma.
Anacleto amava a Mariana como os pais que são mais extremosos e ternos.
Apenas saindo do berço, Mariana perdera sua mãe, e então seu extremoso pai, vendo-a tão pequenina já órfã, tão debilzinha e já sem um de seus gênios protetores, viu também nisso uma razão para amá-la em dobro.
Obrigado por sua viuvez a rodear sua filha daqueles ternos e miúdos cuidados, de que especialmente se ocupam as mães, perdendo noites por ela, às vezes embalando-a para fazê-la dormir, Anacleto tinha por sua filha reunido em si dois amores a um só tempo: o amor de pai e de mãe.
Desse modo Anacleto pôde estudar a fundo o caráter de sua filha; pôde ler na leve contração de um músculo de seu rosto o íntimo sentimento de sua alma, e distinguir a verdade e a mentira nos feiticeiros sorrisos de Mariana.
Mas o amor não dá somente prazeres, faz sofrer também pesares acerbíssimos. Não será até possível decidir se estes são devidamente compensados por aqueles. Há muitos amores que sorriem; mas não há um só que não chore.
A beleza de Mariana encheu de orgulho o coração de seu pai nos primeiros anos, pouco depois porém essa mesma beleza começou-lhe a ser origem de sérios cuidados; quando ele chegou a notar que sua filha, vaidosa de seus encantos, embriagada com o incenso de mil lisonjas, procurava ganhar escravos em todas as sociedades onde aparecia, não desanimava nem preferia nenhum de seus numerosos admiradores, e, em uma palavra, amava perdidamente o galanteio... o galanteio, que é quase sempre um obstáculo para a felicidade das moças, e uma recordação desagradável, que às vezes, já em muito nobre posição, as faz corar diante de um homem que vem visitar seu marido.
Então Anacleto desamava a beleza de Mariana, quisera antes vê-la cem vezes menos bela, contanto que fosse cem vezes mais discreta; porque enfim, uma filha nunca é feia para seu pai.
Quando Mariana casou, Anacleto sentiu-se livre de uma responsabilidade imensa; mas cedo encheu-se de novos e de mais importantes cuidados. Anacleto adivinhou o amor de sua filha e do jovem Henrique, e tremeu, e teve vontade de morrer; porque um pai faz-se por seu grande amor solidário na vergonha de seus filhos. E teve vontade de viver para velar por Mariana, para salvá-la e salvar-se daquele abismo.
Veio depois a viuvez de Mariana e com ela novos tormentos para o pobre velho. Um mancebo com quem ele antipatizava, parecia exercer sobre sua filha um império indizível. Com seu olhar penetrante, com suas vistas de pai, Anacleto via Mariana tremer diante de Salustiano... uma vez compreendeu que entre eles dois devia haver um segredo terrível; estudou inutilmente as ações e procedimento de ambos; daria metade dos poucos anos que lhe restavam para descortinar aquele arcano, mas não descobriu nada.
Enfim, chega Henrique, e outra vez aparece diante de sua filha. O amor daqueles dois corações não se tinha deixado morrer na ausência. Anacleto surpreende essa afeição ardente e dá-se parabéns porque Henrique é um nobre mancebo, que merece sua filha, e porque, além disso, vem livrá-lo do espectro que o assusta, vem lançar fora do combate a Salustiano.
Todavia, a despeito da presença de Henrique, Salustiano prossegue com seus antigos modos; Mariana continua, como dantes, a hesitar a seus olhos; portanto, nem o talismã do amor a pode salvar; e o pobre pai, que não conhece o abismo que o assusta, não tem o poder de avaliar o seu fundo, e treme ainda.
Um sarau é dado... festejam-se os anos de Celina, e nessa noite de prazer, na
qual Anacleto adormecia suas mágoas, o mancebo importuno e terrível vem despertá-las.
O triste velho viu Salustiano aproximar-se de sua filha, conheceu no semblante dela que havia terror dentro de sua alma, e sem poder vencer-se, segue o par que passeia e conversa; apura o ouvido, e apanha algumas palavras.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.