Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Rivais, não disse eu; porque Otávio ama loucamente uma senhora, não se segue que ela por isso lhe corresponda.
— Então D. Honorina é algum anjinho, que não sinta o que nós sentimos? perguntou Rosa, não há ninguém neste mundo que lhe mereça um suspiro? meus senhores, tenham cuidado que não voe para o céu o seu querubim!...
— Não, não digo isso, tornou Brás-mimoso; porém afirmo que não é Otávio o mais feliz de seus adoradores.
— Então quem é, quem é o venturoso conquistador daquele belo milagre da natureza?... perguntou Rosa.
— Eu... eu o não saberei dizer, respondeu Brás-mimoso fingindo-se acanhado, ainda é tão duvidoso...
— Bravo!... bravo!... parabéns, Sr. Brás, gritou Tomásia.
— Bravo!... parabéns!... parabéns!... repetiu Venâncio.
— Devia ser assim!... exclamou Rosa rindo-se muito; os senhores merecem-se igualmente.
— Ora... não era isso... o que eu queria dizer; mas enfim... certos sinais que vi, e que um homem entendido nestas coisas sabe muito bem compreender...
— Bem, bom!... bem bom!... disse Rosa, vamos aos sinais...
— Desnublar arcanos de amor, minha senhora!
— Todos nós aqui somos de segredo... olhe, eu não tenho na vizinhança senão seis amigas com quem converso; o seu segredo não pode passar desta rua; além de que ninguém lhe mandou principiar.
— Os sinais, Sr. Brás, os sinais!...
— Enfim... vá...
Brás-mimoso, sem reparar que Manduca estava já roncando de raiva, começou:
— Talvez atendendo a estas minhas maneiras delicadas, ao espírito e sutileza que, sem vaidade o digo, desenvolvo em um sarau... D. Honorina mostrou-me uma predileção...
— Ora, isto já passa de impostura!... bradou Manduca.
— Cala-te, Manuelzinho... Sr. Brás, não faça caso do que ele disser... disse Tomásia.
— Não faça caso do que ele disser, repetiu Venâncio; continue, Sr. Brás, não faça caso do que ele disser.
— Está com ciúmes!... coitado! acudiu Rosa.
Brás-mimoso não cabia em si de contente: o ciúme de Manduca o enchia de glória. — Pedindo-lhe para valsar comigo, continuou Brás-mimoso, ela respondeu-me que sentia bastante estar já comprometida com outro: ora, isto de sentir bastante não será muito explicativo?
— Muito!... muito!... não tem dúvida...
— No terrado, em um momento infeliz, escorreguei tão fortemente, que, se me não seguro à casaca de um amigo, esbarrava por força diante dela; quando me endireitei, olhei-a, e vi que ela se estava sorrindo docemente... bem se vê que isto não deixa dúvida nenhuma!...
— Mas, Sr. Brás, acudiu Rosa se eu estivesse lá e lhe visse escorregar, não me ria docemente, soltava mesmo uma gargalhada, e ninguém dirá que somos apaixonados.
— Por isso mesmo... no rir-se docemente é que está o segredo!...
— Ora, vejam isto!... e minha mãe me chama de tolo!... tolo eu, quando o Sr. Brás diz destas!... exclamou Manduca.
— Enfim, minhas senhoras, por duas ou três vezes ela olhou-me com expressão tal, que... — Se é por isso, interrompeu Manduca, ela de uma vez também me olhou com expressão três vezes...
— Mano, isso precisa de explicação.
— O que precisa de explicação, é o que tem dito o Sr. Brás, exclamou Manduca afrontado; porque é muito malfeito andar se impondo de namorado de uma moça tão inocente.
— Bravo!... que inocência!... disse Rosa.
— Pois eu tenho culpa de lhe haver agradado?... tornou Brás-mimoso.
— Qual agradado, nem meio agradado; pois o senhor se capacita de que uma moça de bom gosto havia de interessar-se por um esqueleto de cinqüenta anos?
— O Sr. Manuel Venâncio me insulta!... exclamou Brás-mimoso.
— Manuelzinho, cala-te!... gritou Tomásia.
— Cala-te, Manuelzinho, repetiu Venâncio.
— O senhor, continuou Brás-mimoso, endireitando a gravata, com ter menos de vinte anos não é capaz de ser mais bonito nem mais engraçado do que eu.
— Pois mostre-se tal qual é, respondeu Manduca; tire os cabelos postiços, os dentes postiços, a cor postiça da cara!... o senhor sempre é um homem, que usa de mais postiços do que a própria mana Rosa...
— Não seja tolo, ouviu?... acudiu Rosa enraivecida, não me meta lá nas suas tratadas... minha mãe, ouça o que está dizendo este pateta.
— Manuelzinho, retira-te, disse Tomásia, a tua cabeça não está boa.
— Retira-te, Manuelzinho! repetiu Venâncio. Sr. Brás, não repare, a cabeça dele não está boa.
Manduca retirou-se furioso da sala, jurando vingar-se de Brás-mimoso.
— Não se enfade, Sr. Brás... aquilo é fogo de palha; tem estas imprudências, mas é um menino muito bem-criado e de muito bom gênio.
— Eu tenho-lhe amizade, disse Brás-mimoso, já menos irado; sei o que é o ciúme... o Sr. Manuel foi infeliz... é um rival que caiu por si mesmo; o mais terrível, e o que me dá mais cuidado é Otávio.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.