Por Camilo Castelo Branco (1869)
― As velhinhas escondem-se – ocorreu a jovial Vitorina. – é o que faltava aparecer uma velha carcomida logo de pancada a um senhor que não via criatura viva há dois anos?
― Pois quero e desejo vê-la, e muitas vezes, Sr.ª Vitorina. Tem-me tratado com muito amor. Já tive outra criada com o seu nome. Onde isso vai! Há bons trinta e dois anos que a não vejo!...
― Já deve ser da minha idade, então... – observou a velha, trejeitando para as damas.
― Sim, se vossemecê anda pelos setenta...
― Setenta! Deus nos acuda!... Pois eu tenho lá setenta anos!
― Então quantos tem vossemecê?
― Fiz sessenta e nove há seis meses.
― Ah! Então recolho o meu juízo! – casquinou o conde. – Está vossemecê muito nova, Sr.ª Vitorina. Cuidado com as ilusões da mocidade, menina!
Riam as senhoras, e Vitorina continuou a provocar as jocosidades do conde, que eram ouvidas com admiração, mormente pela filha, que, nos raros dias de convivência com seu pai, o não vira sorrir uma vez só.
Quando, ao cair da tarde, se anunciou a chegada de João Pedro, saiu a encontrá-lo no quinteiro Ângela.
O velho embasbacou, e encostou-se à mula, de que desmontara, porque as pernas lhe faltavam.
A filha do conde de Gondar em poucas palavras elucidou-o sobre o que lhe convinha fazer para que a cura de seu pai não fosse perturbada por alvoroços de espírito ou nevralgias que lhe irritassem os olhos.
Logo que o ensejo se apropositou, Francisco Costa, estando já precavido o escudeiro, volveu a falar ao conde no seu intento de procurar Ângela.
― Ai está João Pedro que dirá a vossa senhoria o nome do homem com quem minha filha foi casada.
O escudeiro custava-lhe a conter em posição sisuda as mandíbulas abertas pelo riso, quando respondeu, voltado para Ângela:
― Chamava-se Hemorragilde.
Abafaram todos o froixo da gargalhada, tirante o conde, que murmurou:
Vejam que nome! Parece gótico; mas ainda parece mais nome de moléstia... Hemorragilde!...
Se o senhor conde permitir – disse o cirurgião – vai João Pedro ao Porto com cartas minhas, visto que o dispensamos aqui, e pode lá fazer bons serviços ao nosso intento.
― Pois que vá onde vossa senhoria ordenar – anuiu o conde.
― E, segundo as notícias que nos for comunicando, vossa excelência ordenará o que há de fazer-se. Conjecturemos que ele encontra a Sr.ª D. Ângela. Que manda o senhor conde que ele diga a sua filha?
― Que imediatamente venha para minha companhia – deliberou sem detença o general – que não espere novas ordens; que se recolha à minha casa de Ponte, e espere por mim... e por todos nós... porque vossa senhoria e estas senhoras iriam comigo, não é verdade? Iriam ser testemunhas da felicidade que me começou no seio caritativo e amoroso desta família...
― E se sua filha, senhor conde, quisesse vir aqui mesmo encontrá-lo, não seria isso antecipar-se a ela o júbilo de lhe beijar as mãos?...
― Sim...; mas eu queria poder vê-la... Se ela viesse enquanto dura esta escuridão, seria grande e dolorosa a minha ânsia...
― Concordo, e aconselho até que ela venha depois que vossa excelência estiver convalescido – obtemperou Francisco.
― Mas o doutor parece que dá a vinda como possível! – admirou o conde.
― Pois não é possível?! Afigura-se-me até provável... O impedimento único seria ter ela morrido. Se existe, hei de descobri-la mediante as diligências dos meus amigos. Encontrada ela, tem vossa excelência a sua filha nos braços.
― E, se ela mos repelisse!... – conjecturou o velho, quebrado do vigor com que estivera dialogando.
― Seria incrível!... – objetou o marido de Ângela.
― Eu também a repeli... – contraveio o conde.
― Tão justificados seriam os motivos...
― As calúnias, e mais que tudo... a terrível doença da minha alma... a peçonha que ma queimava... a desesperada tristeza que me ia levando à demência, e me deixou o pior... que foi a vida, a consciência dos meus crimes encadeados uns noutros, como os fuzis do grilhão que amarra o criminoso ao cepo... Aí vem o meu demônio... – disse reconcentrado o conde...
― Mal vamos assim! – acudiu o facultativo, tomando-lhe o pulso. – Senhor conde, domine-se, arranque-se dessas intermitentes, pelo menos enquanto não estiver inteiramente restaurado.
― Senhor conde! – rogou ternissimamente Ângela – peço-lhe pelo divino amor de Deus que não se aflija... Diz-me o coração que sua filha o ama, e lhe dará anos de muita alegria e sossego de alma. Verá que não me engano o pressentimento... O seu mordomo vai amanhã para o Porto. Daqui a oito dias pode muito bem acontecer que sua filha aqui esteja, a pedir-lhe perdão, se caiu nalgum erro...
― Não caiu! – exclamou o velho. – Precipitaram-na; fui eu, foram todos os que deviam ampará-la com o seio, com o coração, se ela pendesse a cair...
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.