Por Lima Barreto (1911)
Fellahs. Como tu sabes, são supostos representantes dos contemporâneos dos Faraós. Contam eles que, por ocasião da conquista pelos árabes, o escriba Hué-Tep despertou do túmulo. São casos que se passam freqüentemente nessa vasta necrópole que é o Egito. Hué-Tep ergueu-se do túmulo, tirou a sua máscara funerária e viu toda a brutalidade de Omar e seus sequazes. Reparou que não gostavam dos rolos de papiros e não tinham em grande conta o seu velho saber de estilizar em belos caracteres demóticos os grandes fatos das dinastias. Hué-Tep, ressuscitado do túmulo por aquele tropel, não sabia como viver. Tinha uma língua tão diferente e os recém chegados odiavam a escrita. Como havia de ser?
Estava pensando, já fora do túmulo e sentado sobre a extremidade de uma gulga de granito, quando um “caid” árabe, com a cabeleira untada de graxa, aproximou-se e perguntou-lhe:
— Que fazes, meu velho?
— Vim de entre os mortos e não sei o que hei de fazer.
— Quando vivias, o que fazias?
— Escrevia; era escriba de Phon-Chué, ministro do poderoso Amenem-Set.
— Isto está fora de moda. Não vês, por que o Egito com os seus três impérios desapareceu? Foi a escrita... Nada de escrita. Fora os preparados.
E logo o escriba da maravilhosa letra ficou convencido dos malefícios que a sua habilidade representava e seguiu o “caid” que lhe dava tâmaras e mel de quando em quando.
O escriba Hué-Tep, que só fora estimado pelo seu saber e pela sua linda letra, começou a aconselhar a quebra dos monumentos e a queima das bibliotecas; e foi por isso, dizem os Fellahs, que o Egito ficou estéril.
— Eu sei Doutor. Eu sei.... Mas esse saber aí não é saber que valha.
— Mas qual é o teu saber, Inácio?
— É a ciência positiva... Não admito essa jurisprudência, esse Direito.
— Por quê?
— Porque não é positivo.
— Quem diz que o teu é?
— Doutor, o senhor é um metafísico... Não de pode conversar com o senhor. Nós precisamos, Doutor, de aperfeiçoamento moral; e devemos ter por principal escopo a incorporação do proletariado à sociedade moderna.
Quase sempre Benevenuto, depois do jantar, vinha àquele Café espairecer e conversar com um e outro conhecido. Não tinha companheiro certo, mas era raro que encontrasse Inácio Costa. As noites, raramente este saía de casa; mas, por aquela época de grande atividade política, ele as aproveitava para ir a esta ou àquela casa de pessoa influente, principalmente à de Bentes, que vivia cheia. De resto, quando o não fazia, corria os cafés, as redações dos jornais, buscando novidades, num temor constante que Bentes se evaporasse de uma hora para outra.
O primo de Edgarda encontrara ali Inácio e estavam a conversar amigavelmente, quando Lucrécio aproximou-se da mesa e, e pé, apoiado ao guardachuva, disse sem mais cumprimentos:
— Sabe... com licença, Doutor... mataram o Zeca Boneco.
A Benevenuto pareceu que se tratava de alguma relação de Inácio, mas este indagou com indiferença.
— Quem é?
Lucrécio tinha nas faces o temor estampado e, de vez em quando, olhava os lados cautelosamente.
— Um rapaz... Um rapaz dos nossos... amigo do Totonho.
— Quem foi? — O povo!
Barba-de-Bode pronunciou esta palavra e respirou aliviado; Benevenuto levantou-se e foi passar o resto da tarde em lugar menos povoado de novidades políticas.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.