Por Aluísio Azevedo (1895)
Orgulhoso como era, a ninguém, a nenhum amigo, exceção feita do Coruja, confessava as suas necessidades e este fato ainda mais as agravava.
E quando em tais ocasiões lhe pediam dinheiro emprestado? Oh! não se pode imaginar que suplício para Teobaldo!
Principiava por lhe faltar a coragem de confessar que não o tinha; e, se o do pedido insistia, começava ele a arranjar pretextos, a remanchear, a prometer para daí a pouco, a mentir, como um caloteiro que deseja engodar um credor impertinente.
E, se o sujeito não desistia, Teobaldo dizia-lhe que esperasse um instante e corria a empenhar o relógio, a arranjar dinheiro fosse lá como fosse, contanto que não tivesse de confessar a sua miséria a outro necessitado.
Estes sacrifícios eram tanto mais rigorosamente cumpridos, quanto menos seu amigo era o sujeito que lhe fazia o pedido; não representavam desejo de servir, mas pura e simples manifestação de vaidade.
Quando, porém, o pedinchão lhe era de todo desconhecido, Teobaldo preferia passar por mau e respondia-lhe com a lógica de um sovina, e aos mendigos negava a esmola rindo, fingindo não acreditar nas lágrimas de fome que muita vez lhes saltavam dos olhos.
XIV
Voltou a casa às horas de jantar, e mais aborrecido do que nunca. Para isto contribuía em grande parte a insociável catadura com que o tio recebeu.
Ao entrar na alcova soltou uma exclamação:
- Pois a senhora ainda está aí? perguntou ao dar com Ernestina estendida na cama. - Ora esta!
- Você é um malvado! respondeu ela com dificuldade, por causa de uma formidável rouquidão. Você é um judeu!
- Está incomodada?
A teimosa meneou a cabeça afirmativamente e explicou, mais por mímica do que por palavras, que aquela sua ida à janela a pusera naquele estado.
- Estou ardendo em febre, disse. - Seu amigo chamou um médico, foi buscar os remédios e deu-me um suadouro. Creio que vou transpirar. É preciso não abrir a janela.
- Pois eu hei de ficar fechado aqui com este calor? Ora, minha senhora!
E o pior, pensava ele, é que estou sem vintém.
Entretanto, desceu ao banheiro, lavou-se, mudou de roupa e, antes de assentar à mesa de jantar, chamou pelo Caetano e, entregando-lhe o seu relógio e a sua corrente, ordenou-lhe que levasse esses objetos a uma casa de penhores.
- Irei depois, objetou o criado: - por enquanto tenho de servir o jantar.
- E o Sabino?
- O Sabino desapareceu há três dias.
- Bem, nesse caso irás depois.
E mais baixo:
- A Ernestina almoçou?
- Bebeu um caldo. O médico recomendou que não lhe dessem nada de comer.
- Bom. Não te descuides dela.
- É verdade, acrescentou o criado, - aqui está urna carta de Minas para vossemecê.
- Por falar nisso: o Hipólito chegou; já sabias?
- Ainda não senhor. Vossemecê falou com ele? Como ficou sinhá Gemi?
- É dela justamente esta carta. Vejamos.
Querido sobrinho - Teu tio segue amanhã para aí, vai tratar da compra de um engenho e conta demorar-se um mês ou mais: desejaria eu que o 'procurasse logo que esta recebesses. Ele há de falar--te sobre um pedido que lhe fiz a teu respeito: é uma questão de mesada, visto que, segundo me consta, tens, aí, depois da morte de teu pai, lutado com grandes dificuldades. Eu, se há mais tempo não fui ao teu socorro, é porque teu tio está cada vez mais apertado em questões de dinheiro e não queria por coisa alguma entrar em acordo comigo
Mas agora consegui dele prometer-me que te havia de procurar e que te daria 50$ por mês; não é muito, bem sei, mas com esse pouco e alguma boa vontade poderás continuar os estudos, que muito lamento haveres interrompido
Acredita, meu filho, que, se a coisa dependesse só de mim, não chegaria a sofrer a menor privação; posto que nunca te lembres desta tua pobre tia, que muito te ama e quer. Adeus. Receba um abraço, dá lembranças ao Caetano e, quando puderes, vem fazer um passeio à fazenda.
O criado, que ouvira atentamente a leitura, chorava de alegria, quando o amo acabou a carta.
- Sim senhor! Gostei! exclamou ele - não esperava outra coisa de sinhá Gemi!
- E no entanto, respondeu Teobaldo, nada disto me adianta, pois já estive hoje com meu tio e recusei de antemão a mesada!
- Pois vossemecê recusa a mesada de sua tia?
Não é por ela, é por aquele malcriado do Hipólito.
- Vossemece faz mal.
- Embirro com ele. Acabou-se! E erguendo-se da mesa: - Mas que ainda fazes aí? Dá-me o café e vai onde mandei. Anda! - Então! Não te mexes? Caetano dirigiu-se para a porta, mas voltou hesitando - Então! fez Teobaldo.
- É que, se vossemecê permitisse.. . eu tenho aí algum dinheirinho, que...
- Não, não, obrigado, meu amigo, não te incomodes; desejo mesmo empenhar o relógio... Anda! Vai!
- Então faça ao menos uma coisa...: empenho-o em minhas mãos; sempre é mais seguro...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.