Por Aluísio Azevedo (1891)
— A mulher, reforçou o outro, só é verdadeiramente sublime, quando se dá a todos, sem preferência de nenhum...
— Não concordo convosco! declarou Alzira.
Ângelo sentiu-se irritado com aquelas idéias, e disse, erguendo-se:
— Degradante filosofia é a vossa, escravos da luxúria! Desvirtuastes o amor, prostituístes a mulher! Amaldiçoais assim a melhor obra de Deus!
— Ou do demônio... corrigiu com uma gargalhada um dos comensais.
— Não! teimou Ângelo. O demônio inventou o ódio e não o amor, descobriu a inveja e não a ambição, descobriu o desespero e não a felicidade, descobriu a luxúria, que é o desespero da carne, e não o amor, que é o orvalho da alma!
— Ou estás muito ébrio já, disse aquele; ou és um poeta!
— Não! sou um homem que ama, e nada mais, repontou o amante de Alzira.
— Eis um sonhador!... interveio outro com uma nova gargalhada. Um amante das estrelas!... Mau lugar escolheste tu para os teus idílios sentimentais!...
— Segue o teu caminho, visionário! aconselhou outro. A tua loucura faz-nos pensar, e nós não queremos dar-nos a esse trabalho... Vai-te embora! — Enxotam-me?! exclamou Ângelo.
E puxou um punhado de moedas de ouro, que atirou sobre a mesa, acrescentando:—Tenho o direito de cá estar! Pago os meus prazeres! E, se alguém há entre vós, que a isso se queira opor, fale, que imediatamente lhe taparei a boca.
Um dos convivas ergueu-se, encaminhou-se tranqüilo para ele e disse-lhe, com os olhos meio fechados pela embriaguez:
—Tens o direito de estar aqui, não há dúvida alguma... mas o que não tens, desgraçado, é o direito de incomodar-nos...
— Desgraçados sois vós, míseros sensualistas! replicou Ângelo.
— Deixa-me! tornou o outro desdenhosamente. A tua moral enjoa-me! Se quiseres seguir o nosso exemplo, aí tens o teu copo, é beber até caíres ébrio nos braços da mulher que te ficar mais perto; qualquer destas... Não temos ciúmes!... E se isso não te convém, toma então de novo a tua gôndola e segue adiante, que trazes ao teu lado uma mulher formosa e não prometemos respeitá-la mais que às outras.
— Ai daquele que lhe tocar com um dedo! exclamou Ângelo no auge de cólera.
Alzira interveio.
— Acalma-te disse ela, dando-lhe um beijo. A noite é curta, meu amor; não vale a pena perdê-la com outra cousa que não seja o prazer!
E, voltando-se para os que estavam à ceia:
— Encham-me a taça, amigos, que a noite ainda é melhor assim regada com o capitoso e dourado moscato italiano!
— Tens muito mais espírito que o teu sentimental amante!... observou rindo um dos convivas. E és formosa demais para pertencer a um só homem!
Ângelo deu um salto sobre o libertino que acabava de falar e, desembainhando a sua espada, exclamou, pondo-lhe a mão esquerda fechada em frente do rosto:
— Mais uma palavra e arranco-te a alma, miserável!
— Acalmem-se! suplicou Alzira, colocando-se entre eles. Acalmem-se por quem são! Bebamos e folguemos, antes que o sol venha de novo tirar-me a carne de cima dos ossos!...
— A beleza, disse o contendor de Ângelo, esvaziando ainda uma vez a sua taça espumante; a beleza é uma divindade! E uma divindade deve ser adorada por todos!
— Bravo! bravo! gritaram os que se tinham deixado ficar no chão. Adoremos a divindade da beleza!
— À Beleza! À Beleza!
E entre risos, as taças chocaram-se, tilintando.
— É demais! gritou Ângelo desprendendo-se dos braços de Alzira, e saltando em meio do banquete. E demais! Este miserável deve morrer!
A cortesã procurou detê-lo.
— Ângelo! Ângelo!
— Deixa-me! bradou este. Quero punir aquele; infame! quero esmagar aquele; estúpido libertino!
Houve um geral sobressalto. Ergueram-se todos. Puxaram pelas espadas, e as damas empalideceram, soltando gritos de pavor.
Ângelo parecia possesso. A lamina do seu aço florentino reluzia no ar, ameaçadoramente. E ele sem deter-se um instante no mesmo lugar, varria aos pontapés os estorvos que encontrava nos seus saltos de esgrimista.
— Venham todos! bradava, sacudindo os cabelos. Venham todos, cáfila de brutos sensuais! Venham, que os rejeitarei na ponta deste ferro!
— Ângelo! Ângelo !
— Com a vida o pagarás! exclamou um hércules veneziano, que acabava de erguer-se sacando o punhal.
— Morrerás como um javali! gritou outro, acudindo de arma em punho.
E ouviu-se um coro de imprecações e frases de terror.
— Um conflito?! ...
— Calma! calma!
— Diabos levem os intrusos!
— Morra quem perturba o nosso gozo!
— Matem-no e lancem o cadáver ao mar! — Fiquemos com a mulher, que é bonita!
Entretanto, um cavalheiro colocara-se defronte de Ângelo, com a espada em desafio.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.