Por Aluísio Azevedo (1897)
— Não tens razão... Gaspar tratate bem... As duas únicas vezes em que ele veio cá, dispensoute todas as atenções; não te disse uma só palavra desagradável, não te fez a mais ligeira recriminação, apesar de o haveres tu privado da minha companhia, que tem para ele grande valor....
— Não sei; atacame os nervos aquele ar de hipocrisia. Não posso suportar os seus modos pedantescos de mentor de chapéu alto!
— Tu exageras, coitado! O Gaspar é um excelente homem. Teve na mocidade uma boa dose de desgostos, que o fizeram triste para o resto da vida, mas é um coração de ouro.
— Todavia, nem sequer procura disfarçar a sua antipatia por mim...
— Coitado! ele é lá capaz de antipatizar contigo! Admirame até dizeres isso, quando gostavas tanto dele durante a tua moléstia...
— Ele nesse tempo tratavame de outro modo.
É que ainda não se habituou à idéia de que eu o deixasse totalmente, para dedicarme de corpo e alma a ti, minha querida Ambrosina.
E Gabriel puxou para si a amante, e fêla assentarse nos seus joelhos.
— Pois se tens saudades, é voltar, disse ela.
— Deixate de tolices! Não vês que não posso mais viver sem ti?...
— O mesmo sucede comigo a teu respeito, e é justamente por isso que aborreço aquele homem. Tenho receio que ele acabe por arrebatarte de meus braços!
— Que lembrança!
— Enfim, vejamos ainda uma vez; mas se o Médico Misterioso continuar a tratarme como ultimamente, tu lhe pedirás de minha parte que me dispense a honra de suas visitas...
— Ambrosina!...
— É o que te digo!
— Estás muito nervosa...
— E o que há nisso de estranhar, sabendose a vida monótona que levo entre estas quatro paredes?...
— Mas, o que te falta? dize.
— Faltame tudo, Gabriel! Sinto necessidade de gozar, de esquecer as contrariedades de minha vida!
— Queres viajar?
— Não.
— Então não sei o que te faça!...
E os dois calaramse. Ambrosina, no fim de algum tempo, levantouse.
— Vamos dar um baile? disse ela.
— Um baile? repetiu Gabriel, a olhar espantado para a amante.
— Sim, um baile. O que achas nisso de extraordinário?...
— Nada, mas a grande dificuldade está nos convidados. Quais seriam as damas do teu baile?
— Minhas amigas...
— Que amigas?
— As amigas que eu convidasse... Ora, essa!
— Não é tão fácil como julgas... Acho, por conseguinte, infeliz a idéia. Olha, se queres uma festa, dá antes um jantar, porque, nesse caso, farei também de parte alguns convites...
— Mas haverá música?
— Não sei para quê. Haverá, se fizeres gosto nisso...
— O Melo pode encarregarse de preparar a casa. Ele é tão diligente... lembrou Ambrosina.
— Lá vens tu com o Melo!... Queres que te diga com franqueza? Vou aborrecendo aquele tipo...
— Por quê? coitado?
— Não sei por que, mas vou, cada vez mais lhe tomando birra... As suas visitas já me fatigam.
— Creio que, no fim de contas, muito desconfiado é o que tu és...
— Eu?! Ora, essa! Desconfiado, por que e de quem?!
É um modo de dizer. Vamos formular a lista dos convivas.
E Ambrosina instalouse na sua mimosa secretária de ébano com incrustações de madrepérola, e dispôsse a escrever.
— Pronto! disse ela. Vai citando os nomes.
— Gaspar... lembrou Gabriel em primeiro lugar.
— Não! disse Ambrosina; não queremos festa de dia de finados.
— Mas havemos de não convidar o Gaspar?
— Nesse caso, dispenso aí festa.
— Pois risca lá o Gaspar.
Ambrosina beijou a testa de Gabriel, e continuou:
— Mamãe e Seu Alfredo...
Gabriel sacudiu afirmativamente a cabeça.
— O Reguinho e o Melo... acrescentou ela.
Foram nisto, porém, interrompidos pela campainha do corredor.
— Quem será? perguntou Ambrosina.
Era o Médico Misterioso. Precisava falar em particular ao enteado.
Ambrosina franziu o nariz, e deixouos a sós.
Gaspar, ao tornar de Petrópolis, ficou perplexo com a notícia da nova existência de Gabriel. Correu a vêlo e, logo à primeira conversa, compreendeu, não só que o pobre rapaz era dominado pela amante, como também que esta possuía em si todos os elementos de uma mulher deveras perigosa.
O resultado desta observação foi ficar o bom Gaspar bastante sobressaltado a respeito de seu filho querido. Ambrosina, que aliás lhe mostrava a princípio tanto respeito e parecia dedicarlhe sincera estima, não o recebera com boa cara; de sorte que o Médico Misterioso evitou, quanto possível ter de voltar à casa dela.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.