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#Romances#Literatura Brasileira

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Manuel Antônio de Almeida (1852)

E um dos granadeiros com que viera o major acompanhado foi tratando de conduzir o Leonardo.

O Vidigal seguiu-os tranqüilamente, sem alterar o passo, e dizendo polidamente:

— Adeus, minha gente.

Vidinha desatou a chorar, exclamando:

— Foi malsinação!

— Foi malsinação! repetiram todos, menos os dois primos.

A súcia levantou-se.

CAPÍTULO XXXV

TRIUNFO COMPLETO DE JOSÉ MANUEL

Era um sábado de tarde; em casa de D. Maria havia um lufa-lufa imenso; andavam as crias e mais escravos de dentro para fora; espanava-se a sala; arrumavam-se as cadeiras; corria-se, falava-se, gritava-se.

A dona da casa trajava, fora do ordinário, um rico vestido de cassa bordado de prata, de corpinho muito curto e mangas de um volume enorme. Seja dito de passagem que a prata do bordado estava já mareada, e o mais do vestido um pouco encardido. Trazia ainda D. Maria um penteado de desmedida altura, um formidável par de rodelas de crisólitas nas orelhas, e dez ou doze anéis de diversos tamanhos e feitios nos dedos.

Luisinha trajava também um vestido que qualquer menos entendido na matéria desconfiaria que era filho legítimo do de sua tia; trazia um toucado de plumas brancas na cabeça e um rosário de ouro de contas mui grossas na cintura. Acabavam de sair as duas assim preparadas do quarto de vestir, quando sentiu-se rodar uma carruagem e parar na porta da casa. Luisinha estremeceu; D. Maria levou o lenço aos olhos, e tirou-o em pouco tempo molhado de lágrimas.

— Está ai a carruagem, gritou uma das crias que estava de sentinela à janela.

A carruagem era um formidável, um monstruoso maquinismo de couro, balançando-se pesadamente sobre quatro desmesuradas rodas. Não parecia coisa muito nova; e com mais dez anos de vida poderia muito bem entrar no número dos restos infelizes do terremoto, de que fala o poeta.

Mal tinha este trem parado à porta, sentiu-se o rodar de outro que veio parar junto dele. O que dissemos a respeito dos vestidos de D. Maria e sua sobrinha pode perfeitamente aplicar-se aos dois trens; o segundo parecia filho legitimo do primeiro.

Do último que chegara apeou-se José Manuel, e entrou em casa de D. Maria, que o veio receber à porta.

É inútil observar que a vizinhança estava toda à janela, e via todo aquele movimento com olhos regalados pela mais desabrida curiosidade.

José Manuel trajava casaca de seda preta, calções da mesma fazenda e cor; trazia meias também pretas e sapatos de entrada baixa, ornados com enormes fivelas de prata, espadim e chapéu de pasta.

Acompanhavam-no dois amigos vestidos pelo mesmo teor.

José Manuel estava com um ar entre compungido e triunfante, e desfazia-se em mesuras à D. Maria.

Depois de tudo isto quer ainda o leitor que lhe declaremos que a sobrinha de D. Maria casava-se naquela tarde com José Manuel?

Chegou o momento da partida. Luisinha, conduzida por D. Maria, que lhe ia servir de madrinha, embarcou num dos destroços da arca de Noé, a que chamamos carruagem; José Manuel, acompanhado por quem lhe ia servir de padrinho, fez outro tanto, e partiram depressa para a igreja. Fizeram bem em partir depressa, porque se demorassem alguns minutos, corriam o risco de serem devorados pelos olhos dos vizinhos.

Apenas cessou a bulha das carruagens, começaram estes últimos em conversa renhida, de que damos aqui uma pequena amostra.

— Senhora, dizia uma sujeita que morava junto de D. Maria para outra que morava defronte, o tal noivo poderá ser coisa boa, mas não dou nada pela cara dele.

— E a noiva?... respondia a outra; arrenego também da lambisgóia...

— E o filho do Leonardo ficou vendo estrelas?...

— Por força: venceu este porque é um finório de conta.

— Se a velha deixar tudo à sobrinha, não é mau arranjo...

— Decerto. Pois não sabe que o seu defunto marido era um homem que viajava para a Índia?

Neste tom continuaram até a volta das carruagens.

Agora demos ao leitor algumas explicações a respeito do triunfo de José Manuel.



(continua...)

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