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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A capela do Menino Deus nunca chegou a ser o jardim do Carmelo brasileiro. Ali, porém, nasceu e foi acariciada, cultivada e fortalecida a idéia da fundação do primeiro convento de carmelitas descalças no Brasil. Ali passaram oito anos as duas irmãs em solidão completa, sós e sem saudades do mundo. Ali sofreu Jacinta duros martírios, multiplicando-se extraordinariamente os seus padecimentos nervosos e as lutas com o Demônio, e ali também ela fruiu gozos celestes do amor divino nas suas visões admiráveis e no embevecimento de uma devoção profunda. Ali enfim, novas irmãs e novas esposas de Cristo foram encontrá-la mais tarde, atraídas pelo encanto da virtude e da religião.

A primeira que bateu à porta do recolhimento do Menino Deus foi Rosa de Jesus Maria, que se acolheu àquele retiro aos 15 de março de 1748. Mas, a 14 de julho do mesmo ano, Francisca de Jesus Maria saía pela mesma porta para entrar pela do Céu.

A irmã de Jacinta morreu com a mais perfeita contrição: morreu sorrindo, como se saudasse a hora do seu triunfo. No meio de aflições dolorosas que precederam ao seu pensamento, adivinhou-se-lhe o padecer, mas não se lhe ouviu uma queixa; e dizendo-lhe o confessor que podia gemer para desafogo da dor, ela entreabriu os lábios e murmurou somente: “Ai, meu Deus!”

Refere a crônica fenômenos surpreendentes que se observaram nessa piedosa donzela ainda depois de morta; e eu não hesitarei em lembrá-los, embora reconheça que não me cumpre discuti-los.

Disse-se que o rosto da finada se mostrara risonho, que seus olhos tornaram a abrir-se e brilharam com o fulgor da vida; que seu corpo perdera a rigidez cadavérica, e que durante dois dias se conservara incorrupto. Acrescenta-se que o povo correra em multidão a testemunhar o milagre; que os terceiros de S. Francisco, excitados por tais boatos, acudiram a exigir a defunta, protestando ter Francisca pertencido à sua ordem; e que então Jacinta, adivinhando o motivo de um zelo tão inesperado, e desejando que ficassem na capela os restos mortais de sua irmã, com fé viva em Deus se voltara para o cadáver e lhe falara, dizendo: “Francisca, veste-te de corrupção!” E que a estas palavras o corpo, de súbito, se corrompera e se tornara hediondo e fétido, retirando-se logo os terceiros de S. Francisco sem mais repetir suas instâncias.

Em troco da irmã que perdera, viu Jacinta, nos últimos meses daquele mesmo ano e nos dois anos seguintes, chegarem mais dez irmãs espirituais ao recolhimento; e contando as novas flores que recendiam naquele jardim, compreendeu que era tempo de transformá-lo em berço do Carmelo brasileiro, e começou a fazer praticar as regras de Santa Teresa, por isso mesmo que pareciam mais severas e difíceis.

O governador e o bispo foram visitar o santo retiro, e tão completa pobreza encontraram, que tiveram de descansar, sentando-se no degrau da porta por não haver cadeiras. O Governador Gomes Freire de Andrade resolveu auxiliar eficazmente a construção de um convento, que se determinou levantar ao lado da capela de Nossa Senhora do Desterro, no monte do mesmo nome, e recomendou ao bispo que tratasse de obter as licenças do rei e de Sua Santidade; e o Bispo d. frei Antônio do Desterro concedeu que as religiosas trocassem a saia e a capa de droguete castor pardo e véu de fumo, que até então haviam usado, pelo hábito de estamenha parda e capa de baeta branca e touca desta mesma cor, modificando assim o hábito das carmelitas descalças em atenção ao clima ardente do Brasil.

No dia 21 de junho de 1750, foi lançada a primeira pedra do mosteiro de Santa Teresa; e um ano depois, Jacinta e suas companheiras ouviram missa e receberam o pão sacramental, pela última vez, na capela do Menino Deus, e foram habitar a casa do Desterro onde em algumas acomodações provisórias deveriam ter o seu noviciado.

O breve de Sua Santidade, chegado então, dispunha que as religiosas professassem a regra de Stª Clara. Jacinta de Jesus, porém, insistiu em querer para si e suas irmãs as instituições de Santa Teresa. Freire de Andrade, protetor destas religiosas, empenhava-se em realizar os seus desejos. O bispo, pelo contrário, sustentava a conveniência da disposição do breve, e não se queria prestar a intervir em favor da pretensão das reclusas.

O Bispo d. frei Antônio do Desterro obedecia a um conselho da consciência, procedendo assim, porque entendia que a regra de Santa Teresa tinha graves inconvenientes para ser observada escrupulosamente no Brasil, à vista de certas condições naturais do país. Parece, porém, que a discordância de opinião entre ele e o governador acabou por tornar-se em uma luta caprichosa, pela qual não pouco sofreram as reclusas.

(continua...)

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