Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
E succede ás vezes que a moça loureira, no meio dos seus vôos de inconstância e do galanteio, sem o pensar e sem o querer, deixa-se captivar de um homem mais habil e astuto, e de ordinario de um homem desapiedado, que, illudindo-a com traiçoeiras finezas, prepara-lhe não um altar em que a adore, mas uma pyra vergonhosa em que a sacrifique.
E a vaidosa perde-se em um casamento infeliz, ou ainda peior, em um desengano aviltante, e depois vêm as lagrimas, o arrependimento, os remorsos ; lagrimas, arrependimento e remorsos, provindos daquelles gozos loucos de funesta vaidade... veneno das flores emfim.
IX.
Juliana aspirava com voluptuosidade e confiança o perfume daquellas flores, e ainda não sentia os effeitos do seu veneno.
Mas o caminho em que ia, era o caminho do abysmo e da perdição.
Como tantas outras, deixára-se prender pelas azas no seu adejar continuo e irreflectido de borboleta galanteadora.
Vio uma noite Jorge de Almeida, achou-o elegante, suppôl-o talvez pretencioso, e quiz encadeial-o ao seu carro de conquistadora: irritou-se porque o mancebo ousou ou fingio resistir : soube depois que elle era rico, e teve um pensamento de ambição ; provocou-o e exultou, porque chegou a acreditar que o tinha domado.
A lucta porém se havia prolongado por alguns mezes, em que a simulada indifferença de Jorge de Almeida inflammára a vaidade da formosa moça : e quando Juliana soltou dentro do coração o grito de victoria, o coração respondeulhe com uma confissão de derrota.
Juliana amava pela primeira vez.
O seu amor era puro, não se nodoava nem com um leve pensamento de ambição, nem com o desejo de humilhar seus rivaes ;. Todas essas idéas tinhão passado ; o seu coração estava exhalando o virginal perfume de um sentimento goneroso, nobre, santo.
Se Jorge de Almeida fosse pobre como o obscuro artesão que tem de seu o fructo do seu suor no trabalho de cada dia, Juliana ainda assim o quizera, ou talvez assim o preferira.
A vencedora estava pois vencida ; a conquistadora que procurava ainda um escravo, tinha encontrado um senhor, e dobrava-se contente aos ferros do seu captiveiro.
Mas a lembrança do passado, que era um recente passado de hontem, fazia mal a Juliana.
Quem poderia acreditar na sinceridade do amor da moça loureira ? Duvida-se ainda mais da mulher do que se duvida do homem.
Jorge de Almeida, libertino e incredulo, desejava o posse de Juliana : não a amava porém; descria da paixão de que ella parecia possuida ; attribuia ao encanto da sua riqueza a fortuna daquella nova conquista, e fingindo-se também abrazado nas flammas de um amor irresistível, promettia-se não perder a felicidade brutal que se lhe antolhava provavel.
Uma grande desgraça annunciava-se portanto imminente : gotta a gotta já se estilava o veneno das flores ; era horrivel, era porém uma consequencia filha legitima dos principios : era cruel, mas era logico.
X.
Jorge de Almeida tinha pedido a Juliana uma entrevista no jardim ás duas horas da madrugada.
Dous dias havião passado depois da festa dos annos de Juliana e nas tardes de um e outro Jorge de Almeida não se esquecera de vir fazer a corte á sua amada e noiva.
Cândida recebera e tratara o mancebo como a um filho ; tinha lido as cartas dos pais de Jorge, e não podia mais duvidar do próximo casamento e do brilhante futuro de sua filha.
Juliana saudava a chegada do seu noivo com um sorriso que se abria em seus labios, e que aos lábios chegava partindo do coração.
Ficando ás vezes na sala a sós com a formosa moça, Jorge de Almeida reiterava suas instancias, pedia de joelhos, queixava-se e maldizia-se por não merecer a entrevista, que era o sonho querido do seu amor.
Mas em um e outro dia Jorge de Almeida teve de despedir-se e de retirar-se, sem ver o suspirado ramalhete de violetas descançando sobre o piano.
O angelico sentimento do pejo defendia a virtude da donzella.
Juliana apaixonada e amante violentava-se para resistir aos instantes pedidos, ás lagrimas e ás queixas amargas do homem que ia em breve ser seu marido ; mas o santo pudor dava-lhe forças para a lucta ; e quando no combate reconhecia-se quasi vencida, escapava ao vencedor accendendo-lhe uma esperança.
— Amanhã, dizia ella.
E assim o disse na primeira e na segunda tarde.
E ainda no terceiro dia ella repetio tremendo:
— Amanhã.
XI.
Essa esperança do dia seguinte concedida ao amante era uma sinistra ameaça que á sua virtude fazia a donzella.
Porque não comprehendia Juliana que ainda mais do que o seu pudor, devia a sua razão oppôr uma barreira indestructivel ao pedido reprehensivel e indigno do seu amante?
Amanhã era uma evasiva inspirada pelo pudor.
A resposta única da razão devia ser nunca.
Porque não respondia Juliana com a razão ?... E que a razão
desampara a jovem dominada pelo amor que se desmanda elevando-se á paixão, e só
o escudo celeste do pejo íica para impedir.... ou retardar a perda da donzella
a quem o seductor procura arrastar para um abysmo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.