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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Eu não! 

- Por que, Linda? 

- Todas tem uma pessoa que pense nela. 

- Então você não tem? perguntou Berta com um doce remoque. 

  Linda abanou a cabeça melancolicamente. 

- E Miguel? 

- Ele não gosta de mim! suspirou a menina com o lábio balbuciante e uma lágrima a tremer na pálpebra. 

  Respondeu-lhe Berta com uma fresca risada, que debulhou mesmo nas faces da amiga, como os bagos nacarados e saborosos de uma romã. 

- Olhem que sonsinha!... 

- Nunca mais lhe direi nada, Berta! acudiu Linda, ressentida do modo por que recebera a amiga sua confidência. 

- Pois, menina, você tem lembranças, que a gente não pode mesmo deixar de rirse. Então Miguel não gosta da senhora? Era preciso que ele não tivesse olhos para ver essa carinha de feitiço. 

- Há outra que ele acha mais bonita! 

- Outra?... Qual?... perguntou Berta de todo confusa. 

- Esta, que ele vê a todo momento! replicou Linda, afagando o semblante da amiga com um gesto de triste resignação. 

  De novo disparou Berta a rir com a lembrança da amiga. 

- Ai, que ciumenta, Jesus! 

  Retiniu perto o grito áspero do curiau. No meio do silêncio que reinava naquele sítio, como era natural, excitou esse brusco rumor a atenção das duas amigas, e arrancou-as à anterior preocupação. Berta sobressaltou-se com a lembrança de que ouvira o mesmo apito no dia da tocaia. 

  Conteve-se receando assustar Linda; mas, apesar da promessa que lhe fizera o Bugre, estremecia com a idéia de que Luís Galvão devia chegar de Campinas naquela manhã, e talvez ao passar na volta da Ave-Maria fosse vítima do assassinato que ela uma vez impedira. Em falta de Jão Fera, a oculta vingança que ameaçava a existência do fazendeiro, teria procurado outro instrumento. 

- Vamos ao mirante, Linda? O sr. Galvão não pode tardar. 

- Papai só chega ao meio dia; respondeu a moça erguendo-se para acompanhar a amiga. 

Na ocasião em que as duas atravessavam a horta, um vulto se esgueirando por detrás dos pessegueiros, passava a cerca e sumia-se no canavial. Berta que o viu nessa ocasião, e apenas de relance, inquiriu de Linda para certificar-se. 

- Não é o Faustino aquele? 

  A filha do Galvão, distraída, de nada se apercebera. 

  Não se enganara Berta. Era de feito o pajem Faustino, que saíra de casa sorrateiramente para acudir ao grito do curiau, sinal combinado com o Barroso. Atravessando três ou quatro talões do canavial, foi ele surdir justamente no lugar onde anteriormente, no dia da partida de Luís Galvão, estava de espreita o Monjolo.  

Era um sítio escuso e sáfaro; ficava embaixo de uma barranca, escondido pelo maciço do canavial e pelo matagal embastido que já invadira o valado. 

  Aí estavam Barroso e Monjolo, ambos com o ouvido à escuta de qualquer rumor que lhes anunciasse a chegada do pajem. O branco descansava encostado à barranca; o negro estava acocorado como gambá, junto a uma casa de cupim. 

- Então o diabo chega, ou não chega? disse o Barroso ao Faustino, mal lhe pôs os olhos. 

  Não tarda; antes do meio dia está aí, sim senhor, respondeu o pajem. 

- Eh! Eh!... fez o Monjolo. 

- Vem mesmo? 

- Se vem!... 

- Pois então, esta noite é o batuque. Estão ouvindo? 

- Monjolo já está sacudindo, sim senhor! disse o africano fazendo jeito de saracotear. 

(continua...)

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