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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Aqui, peço licença para separar-me, disse Ricardo. 

- Não passa o dia conosco? 

- Há de me desculpar; tenho necessidade de estar em casa.

- Já vejo que não esqueceu! 

- O quê? 

- A impertinência de há pouco. 

- Oh! minha senhora! 

- Tem medo de outra cena igual. 

- Que idéia! 

- E eu me não posso queixar. 

- É uma injustiça que me faz, D. Guida. 

- Há um meio de convencer-me. 

- Qual? 

- Passe o dia conosco. 

Ricardo hesitou um instante. 

- Passarei, disse naturalmente. 

Refletiu que se persistisse em retirar-se naquele momento, deixaria no espírito da moça a convicção de o haver ofendido, e o desgosto que sempre causa a suspeita de ter decaído da estima de um homem sisudo. 

Que necessidade tinha de humilhar essa moça, de quem afora um instante de contrariedade naquela manhã, só recebera amabilidades e delicadezas? Eram mais algumas horas de constrangimento, que lhe custava essa condescendência. 

- Agradeço-lhe de coração, respondera Guida. Em outro dia sua companhia me seria agradável, como sempre. 

Ricardo inclinou-se: 

- Hoje se não jantasse conosco, eu ficaria triste, acrescentou a moça com um cândido sorriso.

- Então fique alegre, replicou o moço retribuindo o gracejo. 

- E estou! 

Uma terceira voz misturou-se ao diálogo: 

- Então a excelentíssima não quer aceitar? 

Era, não carecíamos dizer, o incansável Sr. Benício, que tendo afinal conseguido sofrear o chouto do machinho, voltara atrás; e aproximando-se sem que o percebessem, ali estava de espinhaço arqueado e braço estendido, a empunhar o guarda-sol, em posição de archeiro. 

Desta vez Guida não respondeu-lhe e seguiu adiante. Voltou-se então o Benício para Ricardo e apresentou-lhe a veneranda barraca: 

- Sr. Doutor, V. S. é servido? 

- Não; obrigado. 

- Olhe que o sol está pelando. 

- Nem por isso! Ao contrário, acho bem fresca a manhã! Fizemos um passeio magnífico. Não gosta da “Vista dos chins”?... 

- Faça favor! Insistiu o obsequioso Sr. Benício com o guarda-sol. 

- É um panorama admirável; não creio que haja no mundo uma tela igual, a não ser uma que eu conheço de fundo verde-gaio, por detrás da qual se desenha a figura de Mefistófeles. Não a que representa no drama de Goethe, mas uma que aparece na farsa do Judas em Sábado de Aleluia. 

- Tenho muito gosto! acudiu imperturbável o Sr. Benício metendo à cara do advogado o chapéu de sol. 

O riso cristalino de Guida que, ao remoque do moço, trilara como um colar de pérolas a desfiar-se, desatou em risada com a réplica do amanuense. 

Ricardo tinha dois fins, travando conversa com o Benício, e falando-lhe em linguagem que para este era grego ou hebraico. 

Conseguia em primeiro lugar reter junto de si aquele algarismo social, que tinha naquele momento a grande importância de uma unidade; somada ao número dois fazia três. 

Além disso defendia-se da serrazina dos oferecimentos com que o ia apoquentar, e nada obstava a que tratasse de rirse em vez de amofinar-se. 

- Olhe! não me incomoda. 

- Já conhecia a “Vista chinesa”, Sr. Benício? 

- Vim uma vez, o ano passado, e por sinal que fazia um sol de abrasar como agora, e eu ofereci o meu guarda-sol ao Dr. Nogueira, o que valeu-lhe bem! Aceite, tome o meu conselho!... concluiu o amanuense enristando de novo a cana para investir contra o advogado. 

(continua...)

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